A juventude amazônica chamada a reconstruir a Igreja
A Igreja não é um lugar que os jovens apenas visitam. Pelo Batismo, eles fazem parte dela, cada um com seu nome, sua história, seus dons e sua vocação. É a partir dessa pertença que o tema do DNJ 2026 ganha força. “Vai, jovem, e reconstrói a minha Igreja”, iluminado pelo versículo “O zelo por tua casa me consumirá” (Jo 2,17), não é somente um convite à participação em um encontro, mas à corresponsabilidade na vida das comunidades e na transformação da sociedade.
O DNJ é tradicionalmente celebrado no terceiro domingo de outubro. Em 2026, uma notícia sobre o calendário da celebração informou a antecipação da data nacional para 11 de outubro, em razão do calendário eleitoral. As dioceses, porém, organizam suas atividades conforme as realidades locais. Na Amazônia, os encontros se distribuem por diferentes datas e percursos, há programações que reúnem jovens em centros paroquiais, outras que passam por mais de um santuário e, em Santarém (PA), a celebração foi remarcada para novembro.
A diversidade regional torna concreto o desafio de “reconstruir” a Igreja. Em muitos lugares, rios, estradas de difícil acesso e longos deslocamentos influenciam a presença dos jovens nas atividades pastorais. Também há comunidades distantes dos centros urbanos e jovens que enfrentam situações de vulnerabilidade. Nesse contexto, o chamado do DNJ exige escuta, acolhida e participação, não apenas a presença juvenil nos eventos, mas a abertura de espaços para que os próprios jovens ajudem a conduzir a missão.
Presidente da Comissão Episcopal para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e bispo de Imperatriz (MA), Dom Vilsom Basso recorda que o Dia Nacional da Juventude foi criado em 1986, depois de 1985 ter sido declarado pela Organização das Nações Unidas como Ano Internacional da Juventude. A iniciativa nasceu no então setor de juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e foi pensada para ser vivida em outubro, mês missionário.
Desde o início, explica Dom Vilsom, o DNJ procurou unir a missão da Igreja ao compromisso com a vida e com a sociedade. Nos últimos anos, a reflexão também tem dialogado com a Campanha da Fraternidade, para que seus temas sejam retomados ao longo do ano. Em 2026, o convite à reconstrução da Igreja se associa à reflexão sobre a moradia e à participação ativa dos jovens tanto nas comunidades quanto na vida social.
Para o bispo, o “zelo” mencionado no lema bíblico se expressa na energia, na coragem e na criatividade juvenis. Ele recorda a mobilização de jovens por educação e políticas públicas e vê nessas iniciativas uma dimensão do compromisso proposto pelo DNJ, ser presença que contribui para uma Igreja mais participativa e para uma sociedade mais justa.
No Amapá, a Diocese de Macapá programou a ‘26ª edição do DNJ das Ilhas’ neste final de semana (17 e 18), no Centro Paroquial Rio Guajará. Com o tema local “Juventude Amazônida: reconstruindo a Igreja, cultivando a esperança”, o encontro foi organizado como espaço de oração, partilha, louvor e expressões culturais, reunindo diferentes grupos da juventude diocesana.
Dom Antônio de Assis Ribeiro, bispo de Macapá e referencial para a juventude no Pará e no Amapá, destaca que o protagonismo pode ser construído no cotidiano das comunidades. Na Diocese de Macapá, afirma, a pastoral juvenil oferece possibilidades de serviço na comunicação, na música, na caridade, na acolhida, como coroinhas e nas atividades missionárias.
São experiências que, segundo o bispo, ajudam os jovens a se inserirem na vida da Igreja e a crescerem na liderança. A participação, assim, não começa nem termina no DNJ, ela se desenvolve quando cada comunidade confia tarefas, acolhe iniciativas e reconhece os jovens como agentes da missão. Como referencial também para o Pará, Dom Antônio aponta uma questão que atravessa as dioceses dos dois estados, “como fazer com que os jovens participem não apenas como convidados, mas como pessoas que ajudam a pensar e construir a vida comunitária?”
Na Romaria da Juventude, parte da programação do evento, a caminhada reuniu, fé, formação e compromisso com a comunidade. Dom Antônio de Assis Ribeiro destacou a importância da vida espiritual na missão dos jovens “a Romaria da Juventude, foi também um espaço de formação na fé. Foi uma oportunidade de catequese com os jovens sobre o tema do Círio deste ano, que refletiu sobre a presença de Jesus e Maria, que renovam o vinho da família”, afirmou.
O bispo explicou que, durante a missa e ao longo do percurso, a reflexão se volta à vida espiritual dos jovens. “Esse é o vinho do amor a Jesus, a Maria e à Igreja, que renova a existência. O sentido da vida tem uma profunda relação com a amizade com Jesus Cristo, com Nossa Senhora e com os compromissos éticos com a sociedade”, destacou, “Os jovens são chamados a ser “bons cristãos e honestos cidadãos”, mas precisam ser educados e evangelizados para assumir essa missão. “Aqueles que se nutrem do vinho novo do Evangelho, a fé, a esperança e a caridade, já estão profundamente comprometidos com a Igreja e com a sociedade, lutando por um mundo melhor”.
Para Abraão de Jesus Penha, coordenador diocesano da pastoral da juventude o crescimento da participação no DNJ, este ano, de cerca de 900 para aproximadamente 1.600 jovens, é fruto de mais de um ano de trabalho próximo às comunidades. Nesse período, a equipe percorreu as 118 comunidades da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, promovendo encontros e formações sobre participação, sinodalidade, vocação e evangelização. “O que vimos no DNJ foi o desaguar desse caminho, os jovens acolheram o chamado e voltaram às comunidades dispostos a ser sal e luz. Essa participação expressiva e vibrante não é fruto do acaso. É resultado da graça de Deus e de um trabalho perseverante, construído ao longo de pouco mais de um ano, junto as 118 comunidades, organizadas em setores e blocos”, contou o jovem.
Na Arquidiocese de Manaus, a preparação para o DNJ tem sido articulada com um caminho de escuta juvenil realizado após a conclusão do Sínodo da Juventude, em dezembro de 2025. Dom Samuel Lima, bispo auxiliar e referencial para as juventudes na arquidiocese, explica que os próprios jovens delinearam propostas em áreas como juventude e missão, participação na vida arquidiocesana, saúde mental e redes sociais e digitais.
Para Dom Samuel, o DNJ fortalece esse processo e reúne diferentes grupos, pastorais, movimentos e comunidades num caminho de fé, comunhão e missão. O bispo destaca especialmente a evangelização feita pelos próprios jovens, nas periferias e em todo o território arquidiocesano, uma tarefa que pede presença, vínculo e atenção às necessidades de quem encontra mais obstáculos para participar.
A celebração arquidiocesana está marcada para 31 de outubro. A programação começa às 15h, com acolhida e animação no Santuário de Nossa Senhora Aparecida; em seguida, os participantes seguem em romaria até o Santuário São José, onde será celebrada a missa às 18h. O encontro termina com um show temático de bandas locais. Para preparar a celebração, o Setor Juventude também disponibilizou um subsídio com três encontros de oração, reflexão e ação, voltados à realidade dos jovens na Amazônia.
A reconstrução proposta pelo DNJ também se inspira em jovens que viveram a fé em sua própria época. Em setembro de 2025, Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati foram canonizados pelo Papa Leão XIV. Suas trajetórias mostram diferentes formas de unir espiritualidade e compromisso com as pessoas.
Carlo, que morreu aos 15 anos, cultivava uma forte devoção à Eucaristia e usava seus conhecimentos de informática para comunicar a fé. Seu testemunho também se expressava em gestos concretos de caridade. Frassati, estudante universitário que morreu aos 24 anos, aproximou a oração do serviço aos pobres e da participação na vida social. Nos dois, a santidade não aparece como algo distante da juventude, mas como uma forma de viver o cotidiano com generosidade, coragem e atenção ao próximo.
Ao falar aos jovens, Leão XIV os convidou a “construir pontes, não muros”. A imagem se aproxima do apelo à comunhão presente no tema do DNJ, reconstruir a Igreja também é vencer divisões, criar vínculos e abrir espaço para quem ainda não se sente acolhido.
Na Arquidiocese de Santarém, o DNJ será celebrado em 22 de novembro, com a participação de jovens de paróquias, comunidades, pastorais e movimentos. Dom Irineu Roman, arcebispo de Santarém, afirma que o encontro será uma oportunidade de alegria, comunhão e encontro com Cristo, mantendo o compromisso com a evangelização da juventude.
Ao refletir sobre o lema, Dom Irineu o relaciona ao chamado de São Francisco de Assis diante do crucifixo de São Damião e à criatividade dos jovens, à vontade de participar e ao desejo de construir o novo. Para ele, esse protagonismo pode ajudar a fortalecer a sinodalidade, a amizade social e a unidade, superando divisões e polarizações. O compromisso, ressalta, precisa alcançar tanto a vida interna da Igreja quanto a transformação da sociedade.
Criado em 1986, o Dia Nacional da Juventude chega a quatro décadas como espaço de encontro, reflexão e mobilização. A história recordada por Dom Vilsom ajuda a compreender que o DNJ não é apenas uma celebração anual, é um chamado contínuo para que as juventudes participem da missão, contribuam para a vida das comunidades e levem sua energia também aos desafios da sociedade. Na Amazônia, esse caminho ganha rosto em cada jovem, em cada comunidade e em cada iniciativa que ajuda a Igreja a caminhar junto.