No Angelus, a saudação do Papa aos descendentes de italianos de Erechim/RS
“Agora saúdo com carinho todos vocês, romanos e peregrinos! Dou as boas-vindas aos grupos vindos de São Paulo, no Brasil, e aos de vários outros países. […] Saúdo a ‘Família Bellunese’ com a Escola Fainors de Erechim, no Brasil; bem como os motociclistas reunidos para manifestar-se a favor da paz e da vida. Desejo a todos um bom domingo.”
As saudações do Papa Leão ao final do Angelus deste domingo (13/09) pegou muitos brasileiros de surpresa, como aqueles provenientes de São Paulo e também do interior do Rio Grande do Sul: o grupo de alunos e ex-alunos da Escola de Língua e Cultura Italiana La Piave Fainors da cidade de Erechim, ao norte do Estado. Dedicada ao resgate, valorização e difusão do idioma italiano na região gaúcha do Alto Uruguai, há 33 anos a Fainors (Associação de Familiares de Italianos do Norte do Rio Grande do Sul) também procura realizar viagens de imersão na Itália para promover intercâmbio dos estudantes, especialmente com aqueles do Vêneto, como da Associação Bellunesi nel Mondo (APS), citada pelo Papa Leão XIV em relação à província de Belluno ao norte da Itália, que atualmente conta com 7 mil membros em todo o mundo. Graças ao empenho das famílias envolvidas nessas entidades é possível manter viva a identidade cultural italiana no exterior, como no próprio Brasil, onde há a maior comunidade de oriundos fora da Itália.
Esses 30 milhões de descedentes de italianos, porém, têm enfrentado restrições legais quanto à transmissão da cidadania italiana por direito de sangue (o acesso ao princípio do jus sanguinis). Em recente visita ao Brasil, o vice-premier e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, foi questionado sobre as mudanças na legislação. Segundo a agência de notícias Ansa, ele defendeu a reforma promovida pelo chamado “Decreto Tajani”, convertido em lei pelo Parlamento Italiano em 2025, e descartou qualquer possibilidade de flexibilização das regras.
Leia a íntegra do Angelus do Papa Leão XIV
O grupo da Fainors na Itália
Entidades comunitárias como a dos Bellunesi nel Mondo e Fainors transformam-se, então, em pontes entre os dois países e ferramenta eficaz de preservação de identidade dos milhões de brasileiros que tiveram a história moldada pela imigração. O grupo de 29 pessoas presente na Praça São Pedro no domingo (13/09), para rezar junto com o Papa a oração mariana do Angelus, por exemplo, saiu de Erechim/RS no final de agosto para uma experiência de 15 dias na Itália. Antes de Roma, o roteiro passou pela própria região do Vêneto, por Veneza e Belluno, e seguiu pela Lombardia, Piemonte e Toscana. No Vaticano, entre a multidão de 15 mil pessoas na Praça São Pedro, o grupo foi citado por Leão XIV nas saudações finais do Angelus, para emoção de todos, inclusive das alunas Beatriz Zanatta, veterana da Fainors e segunda vez na Itália, e Magda Ampessan Schneider, que começou as aulas neste ano:
“Pra mim, o dia de hoje, além da emoção que é o final da viagem, o Papa ter dado atenção aos Bellunesi nel Mondo de Erechim, foi muito lindo! A gente vibrou e gritou muito no momento, mas acima de tudo, a gente ficou arrepiada com colegas em lágrimas, porque sonhamos com isso, mas a gente não imaginou que fosse acontecer.”
Assista aqui ao vídeo do momento da saudação aos brasileiros
A Associação Bellunesi nel Mondo, na pessoa de Rino Budel – um grande incentivador das associações italianas no Brasil e responsável pela organização das viagens em território italiano -, foi quem acompanhou o grupo gaúcho liderado, a partir do Brasil, pela professora Kleusa Frosi, que tem duas turmas de conversação na Fainors. A viagem torna-se, assim, uma extensão do trabalho desenvolvido na escola. Kleusa reforça o quanto o ensino do idioma ajuda a preservar a herança dos familiares:
“Não é só a língua italiana, mas também resgatar a cultura, costumes, a gente conta histórias dos antepassados, já que cada um tem uma história da família, da nona e do nono, coisas que trouxeram da Itália. São encontros de conversação e o pessoal também leva comida, como um bom italiano. É um grupo para manter viva a língua e a cultura italiana.”
A língua italiana no Brasil como ponte entre gerações
O presidente da Fainors e também do Comvers (Comitê Vêneto do Estado do Rio Grande do Sul), Marcos Aurélio Dalla Rosa, recorda que a Escola de Língua Italiana é uma das iniciativas mantidas pelo movimento em Erechim que começou há 33 anos com a dedicação de dois grandes idealizadores, Luiz Carlos Piazzetta e Lorival Bellè. Hoje, além dos Bellunesi, a Fainors agrega também outras diversas associações do norte do RS, como a Trevisani e a Vicentini, além de corais italianos. É “uma história construída por muitas mãos”, afirmou o presidente, “feita de voluntariado, encontros, amizades e, sobretudo, do desejo de manter viva a herança deixada por nossos antepassados italianos”. E Marcos acrescentou:
“Essa união demonstra a força do associativismo e a importância de manter vivos os vínculos que unem nossa comunidade às suas origens. Aprender italiano é, para muitos de nossos alunos, uma forma de reencontrar suas próprias raízes. É compreender melhor a história daqueles que vieram da Itália, conhecer as diferentes regiões de origem de suas famílias e estabelecer uma conexão mais profunda com a cultura que ajudou a formar a identidade de nossa comunidade. A escola também tem um papel fundamental na aproximação entre gerações. Se, no passado, a língua italiana fazia parte do cotidiano de muitas famílias, hoje cabe às associações e às novas gerações criar espaços para que esse patrimônio não se perca. Nesse sentido, a Fainors, por meio de sua escola, transforma a língua em uma ponte entre passado, presente e futuro. A Fainors segue seu caminho com os olhos voltados para o futuro, mas com os pés firmemente apoiados em suas raízes — porque preservar a nossa história é também construir o nosso amanhã.”