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Em Roma, religiosa brasileira relata missão social em Maceió, Al

De passagem por Roma após participar de encontros preparatórios no Canadá para o capítulo geral de sua congregação, Irmãs da Assunção da Santa Virgem, a irmã Carmen Lúcia dos Santos levou à Vatican News um testemunho profundamente ligado às periferias brasileiras, à defesa da vida e ao enfrentamento das vulnerabilidades sociais em Maceió, Alagoas.

Religiosa atuante em projetos sociais voltados para crianças, adolescentes e mulheres em situação de vulnerabilidade, irmã Carmen Lúcia em entrevista à Vatican News, falou sobre a realidade enfrentada pelas famílias pobres da capital alagoana, especialmente após o desastre socioambiental provocado pela mineração da Braskem, que obrigou milhares de pessoas a deixarem suas casas.

“Maceió é uma cidade muito pobre, no nordeste do país, que há quatro anos foi atingida com a mineração. Nossa casa foi atingida junto com a dos mais pobres. Mais de dez mil famílias tiveram que sair dos seus locais. Foi um êxodo. Famílias, escolas, postos de saúde”, recordou.

O desastre provocado pela Braskem em Maceió é considerado um dos maiores desastres socioambientais urbanos da história do Brasil. O problema começou a ganhar grande repercussão em 2018, quando moradores passaram a relatar tremores de terra, rachaduras em imóveis, afundamento de ruas e danos estruturais em diversos bairros da cidade. Estudos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil apontaram que o fenômeno foi causado pela exploração de sal-gema feita pela empresa ao longo de décadas.

Desde então, bairros inteiros como Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol passaram por evacuações e interdições. Estima-se que entre 55 mil e 60 mil pessoas tenham sido obrigadas a deixar suas casas, enquanto cerca de 14 mil imóveis foram desocupados ou condenados. O caso transformou áreas antes densamente povoadas em regiões praticamente abandonadas, provocando um profundo impacto econômico, psicológico e social para milhares de famílias.

Foi justamente nesse cenário de deslocamento forçado, empobrecimento e ruptura comunitária que projetos sociais e religiosos passaram a desempenhar um papel ainda mais importante no acolhimento das famílias vulneráveis.

Neste contexto se fortaleceu o projeto Thalita Kum, iniciativa inspirada na passagem bíblica do Evangelho de Marcos em que Jesus diz: “Menina, eu te digo: levanta-te”.

Segundo irmã Carmen Lúcia, o projeto começou há mais de 15 anos como uma casa de acolhimento para meninas vítimas de violência e abandono.

“Nós íamos às ruas encontrar crianças violentadas. Foi uma casa de abrigo durante muitos anos para meninas que perdiam a guarda por causa da violência. Baseadas nesse Evangelho de Jesus, queríamos devolver dignidade a essas meninas e reintegrá-las à família e à sociedade”, explicou.

Com o passar do tempo e diante da falta de apoio governamental, a iniciativa deixou de funcionar como abrigo permanente, mas se transformou em um amplo projeto social e preventivo voltado à juventude e às famílias da periferia de Maceió.

Hoje, o Thalita Kum atende mais de 300 famílias e cerca de 200 crianças, adolescentes e jovens por meio de atividades culturais, educativas e de inclusão social.

“O projeto promove música com violão, violino, flauta, teatro, informática e cursos profissionalizantes. É um trabalho para ajudar o povo a se erguer, a se colocar de pé, a recuperar sua dignidade”, afirmou.

Durante a entrevista, irmã Carmen Lúcia também destacou o papel das religiosas no combate aos abusos sexuais contra crianças e adolescentes — uma realidade frequentemente associada à vulnerabilidade social e à violência intrafamiliar.

Ela explicou que o trabalho preventivo acontece principalmente por meio da educação, da arte e do diálogo com as famílias.

“O teatro é uma das atividades que fazemos. Vamos às escolas apresentar peças para mostrar às crianças e adolescentes os sinais dos abusos sexuais e as formas de prevenção”, contou.

Professora aposentada da rede pública, a religiosa também integrou equipes de prevenção junto a promotores de Justiça e conselhos tutelares.

“Nós trabalhávamos nas escolas contra o abuso sexual. Sempre que existe alguma situação, podemos encaminhar denúncias aos conselhos tutelares e ao poder público”, afirmou.

Além do acompanhamento das crianças, o projeto busca conscientizar famílias sobre a importância da proteção integral da infância e da denúncia de violências muitas vezes naturalizadas dentro do ambiente familiar.

“O trabalho com a música, o teatro e as famílias ajuda a criar uma responsabilidade social e coletiva no combate ao abuso sexual”, disse.

A irmã também lembrou iniciativas nacionais da Igreja Católica voltadas à defesa da vida, como o movimento Grito pela Vida, ligado à Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), que atua no enfrentamento à violência, ao tráfico humano e à exploração de pessoas vulneráveis.

Outra frente de atuação de irmã Carmen Lúcia é junto a mulheres dependentes químicas, especialmente vítimas do uso de crack e álcool.

Ela contou sua experiência na Casa Betânia, em Maceió, onde trabalhou com música e autoestima durante o processo de recuperação dessas mulheres.

“Como através da música você pode trabalhar a autoestima das mulheres dependentes químicas do crack e do álcool foi uma experiência riquíssima”, relatou.

Para a religiosa, o trabalho social desenvolvido nas periferias vai além da assistência imediata: trata-se de reconstruir perspectivas de futuro.

“Outra dimensão se abre no mundo dessas crianças e jovens quando eles se descobrem capazes de desenvolver seus talentos. Eles podem ser felizes, sorrirem, terem autoestima”, concluiu.

 

 

 

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