Dom Gervasi: é preciso uma aliança entre sacerdotes e famílias para se tornar Igreja
“Redescobrir a aliança entre famílias e sacerdotes, nas comunidades paroquiais, para que elas não deixem eles sozinhos, e vice-versa, no contexto de uma sociedade globalizada, que destrói, sistematicamente, os valores da família e da paternidade e maternidade”: eis o resultado da manhã de estudo e reflexão, que o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida dedicou na terça-feira, 28 de abril, ao tema “Sacramento do matrimônio, fé e munus docendi“, na Casina Pio IV, nos Jardins Vaticanos.
Uma comunidade de fé, pré-requisito para vocações sólidas
“A crise, que está ocorrendo no matrimônio cristão, e as dificuldades que os sacerdotes enfrentam para fomentar a fé necessária no sacramento do matrimônio estão, na verdade, enraizadas na dificuldade de ser cristãos hoje. É mais necessário do que nunca redescobrir o significado de uma comunidade cristã, que tenha uma autêntica identidade fiel ao Evangelho, porque depende somente dela gerar vocações”: foi o que disse dom Dario Gervasi, secretário-adjunto do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, à mídia do Vaticano ao término do debate. E reiterou: “A vocação para a família e a vocação sacerdotal estão enraizadas na dificuldade de ser cristãos hoje. O problema não consiste na falta de vocações sacerdotais, mas na falta de cristãos. De fato, se observarmos as micro comunidades ou lugares, onde a fé é bem vivida, encontramos a fonte de vocações para o matrimônio e da vocação sacerdotal”. Com efeito, acrescentou o bispo, “a solução poderia ser uma nova aliança entre o clero e as famílias leigas. Notamos a crise dos sacerdotes, como também a crise dos casais. Isto significa que, se permanecermos juntos, talvez, possamos ajudar-nos mutuamente, mas também crescermos juntos”.
Refletir sobre o amor conjugal em todas as latitudes
Em outubro, dez anos após a exortação apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco, Leão XIV convocou os presidentes das Conferências episcopais do mundo inteiro, para um momento de “escuta mútua” e de “discernimento sinodal”, precisamente sobre o tema do amor conjugal. A este respeito, o Secretário-adjunto do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, observou: “Penso que esta será uma ocasião de grande importância, porque poderá ser uma oportunidade única para refletirmos juntos, ouvindo o ponto de vista do mundo. Esta assembleia será, obviamente, altamente qualificada, porque apresentará as preocupações de todas as famílias cristãs e não-cristãs, que vivem em todas as latitudes do globo. Ela nos permitirá ouvi-las de modo mais profundo e atento”.
Necessidade de uma maior formação vocacional
Por sua vez, a professora Gabriella Gambino, subsecretária do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, também disse à mídia vaticana: “Hoje, refletimos sobre a importância do munus docendi, ou seja, como tornar realmente criativo o sacerdote, para que possa se tornar um mestre da fé e um guia espiritual, capaz de acender a chama da vocação batismal nos jovens, que um dia serão chamados a formar novas famílias: uma família que não tem apenas um papel, um status, uma situação ou uma condição, mas uma vocação”.
Se o matrimônio for uma vocação eclesial, como a vocação sacerdotal, então precisam de preparação e formação, como acrescenta a subsecretária do Dicastério: “O matrimônio é uma vocação. Logo, somos chamados a algo grandioso. Por isso, talvez, tenha chegado a hora de interrogar-nos, seriamente, sobre como todos nós estamos nos preparando. Os sacerdotes nos seminários, mas não só. Devemos ser capazes de colocar em ação aquele poder batismal, que, depois, deve florescer nos jovens, em forma de vocação extraordinária, que pertence à maioria dos fiéis batizados no mundo”. Aqui, a professora Gambino, citou, em particular, a Lumen Gentium: “Os documentos conciliares convidam todos os cristãos — leigos, famílias e sacerdotes — cada um segundo a própria vocação, a formar a comunidade eclesial. Isso é extremamente importante, pois a complementaridade das vocações é essencial para a construção da Igreja. Enfim, os sacerdotes devem ser formados para poder gerar famílias cristãs e acompanhá-las. Mas, as famílias, por sua vez, devem defender os sacerdotes, acompanhá-los e fazer com que se sintam acolhidos e não abandonados”.
Sacerdote, sujeito e objeto de cuidado
Durante o encontro de estudo e reflexão, emergiu ainda a importância, não apenas da complementaridade das vocações, mas também da reciprocidade de “cuidar”, como explicou, à mídia vaticana, monsenhor Simone Renna, subsecretário do Dicastério para o Clero: “O sacerdote não deve ser apenas sujeito de cuidado, mas também objeto de cuidado, porque é uma pessoa. Logo, este imenso dom, que nós sacerdotes recebemos, é um dom para a nossa humanidade, mas continuamos frágeis”. Em pequenas comunidades paroquiais, onde o pároco não pode contar com o apoio de outros sacerdotes, suas dificuldades devem ser acolhidas pelas famílias, como esclarece Mons. Renna: “A fragilidade dos sacerdotes, por vezes, é subestimada ou esquecida. Os sacerdotes devem continuar a cuidar de suas famílias; mas, um sacerdote forte é também aquele que teve a sorte de encontrar leigos, ao seu redor, que cuidaram dele, de sua vida e de seu crescimento. Além disso, toda renúncia de um sacerdote deve ser acompanhada de uma oportunidade de encontro e apoio mútuo”. Assim, o subsecretário do Dicastério para o Clero conclui: “Nós, sacerdotes, precisamos de alguém que cuide de nós, mesmo porque, muitas vezes, fizemos uma escolha e muitos sacrifícios, que, no entanto, não devem se tornar vazios, mas preenchidos pela presença de outros membros da comunidade cristã”.