Da Inteligência Coletiva à Artificial: o ciberespaço como nova Ágora da humanidade
Há alguns anos, com o avanço das novas tecnologias de informação e comunicação, a Inteligência Artificial ainda era um sonho, dando seus primeiros passos a partir de elaborações e conceituações do que poderia um dia se tornar. Primeiro, tentava-se compreender o que estava à volta, ou seja, o ciberespaço. Definido pelo filósofo da comunicação Pierre Lévy como “o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial de computadores e das memórias dos computadores”¹, vê-se que, atualmente, esse ambiente não é mais apenas o palco da comunicação humana mediada. Ele tornou-se o laboratório onde máquinas aprendem a pensar, a criar e, alguns dizem, até a sentir. A Inteligência Artificial (IA) não chegou de fora para dentro do ciberespaço: ela nasceu dele, alimentada pelos bilhões de textos, imagens e interações que a humanidade depositou nesse “suporte de memória”, como o próprio Lévy antecipava.
O sonho da Inteligência Coletiva e sua herança digital
A sociedade imersa nessa ambiência digital passou a viver numa cibercultura, em um novo espaço antropológico. O professor Dr. Pedro Nunes afirmava que o ambiente virtual do saber “transforma o próprio saber” e “agrega formas de cooperação flexível que resultam em processos de inteligência coletiva experimentados na rede”². Lévy completava afirmando que o ciberespaço, como suporte da Inteligência Coletiva, é uma das principais condições de seu próprio desenvolvimento³.
A Inteligência Artificial é, em certo sentido, o passo seguinte dessa trajetória. Se a Inteligência Coletiva era o fruto da soma dos saberes humanos em rede, a inteligência artificial é a tentativa de automatizar esse processo, criando entidades que não apenas armazenam o conhecimento humano, mas o processam, sintetizam e são capazes de reproduzi-lo de forma autônoma.
Se antes o continente digital era o espaço para a troca de informações globalizada, a IA generativa elevou a um nível antes pensado como impossível: a máquina também participa dessa troca e não mais apenas como canal, mas como interlocutora. Ela gera, como que com vida própria.
Existe na rede um termo chamado wiki, um tipo de sistema online que permite que múltiplos usuários criem, editem e modifiquem páginas de forma colaborativa, sem a necessidade de conhecimentos avançados em programação. Quem não se lembra da famosa página web Wikipédia? Ela é a aplicação mais famosa dessa tecnologia no mundo. Além disso, pode ser um exemplo prático da Inteligência Coletiva, feita por diversas mãos. Esta antes era um espaço visto como canal de memória dos saberes humanos, mas ao evoluir, torna-se suporte para um banco de dados que treina os grandes modelos de linguagem, os GPTs, os Claudes, os Geminis, etc. A IA não existe apesar do ciberespaço; ela é sua consequência mais radical e, ao mesmo tempo, sua maior interrogação ética.
A Igreja como luz num ciberespaço que pensa
A Ir. Dra. Joana T. Puntel advertia, com agudeza profética, que os cristãos enfrentam “o desafio de enfrentar a mudança dos paradigmas da comunicação no século XXI”, incluindo “a emergência de novos problemas éticos e morais ligados à Internet” e “o lugar que Deus e a religião devem ocupar no ciberespaço”⁴. Esse desafio, escrito em 2008, é hoje o coração do debate sobre a Inteligência Artificial.
Neste 25 de maio de 2026, o Papa publica a sua primeira carta encíclica, intitulada Magnifica humanitas (Humanidade Magnífica). O documento histórico foca centralmente nos impactos éticos, sociais e antropológicos trazidos pelo avanço rápido da Inteligência Artificial. No capítulo III, depois de um percurso reflexivo acerca dessa temática, o Santo Padre afirma que a IA oferece uma ajuda preciosa, mas que requer atenção: “exigindo, ao mesmo tempo, uma abordagem sóbria e vigilante”⁵. Ao abordar oportunidades e riscos, o Sumo Pontífice incentiva a humanidade a refletir sobre o futuro que já é realidade, para que não sejamos simplesmente homens e mulheres inebriados pelos avanços, sem tangenciar as dificuldades surgidas que podem se tornar complexas e graves.
São João Paulo II dizia que “os meios de comunicação social podem e devem promover a justiça e a solidariedade, transmitindo de modo cuidadoso e verdadeiro os acontecimentos”⁶. Essa vocação não pertence à máquina, pertence ao homem que a utiliza. A IA pode ser um instrumento extraordinário na missão evangelizadora da Igreja, desde que permaneça transparente, discernida e orientada pela verdade. Cabe-nos treiná-la para isso. E isso já está acontecendo em algumas realidades.
A Anthropic, criadora da IA Claude, organizou um encontro em sua sede em São Francisco (EUA) reunindo cerca de 15 líderes cristãos, cientistas e acadêmicos. O objetivo era discutir os limites morais e até espirituais do Claude. O padre Brendan McGuire, um ex-executivo de tecnologia, teve papel ativo na revisão da Constituição do Claude. Assim sendo, observemos o papel de um sacerdote (e consequentemente da Igreja) na elaboração ética base de uma IA. Como seria bom que esse exemplo pudesse ser seguido por outras empresas!
Um novo Pentecostes digital?
Na primeira frase da encíclica Magnifica humanitas, o Papa Leão XIV faz uma abordagem utilizando-se da imagem bíblica da Torre de Babel. No domingo (24/05), nós celebramos o Pentecostes, que tradicionalmente se interpreta como a resposta divina à confusão instaurada naquele momento veterotestamentário.
Quando no dia de Pentecostes ocorreu a efusão do Espírito sobre os apóstolos e a Virgem Maria, o milagre não foi que uma máquina falou em todas as línguas e sim que os presentes foram compreendidos por todos os povos. A IA fala em vários idiomas, pois foi treinada para isso. Mas o Pentecostes é dom do Espírito, não da programação.
O continente digital criou uma ciberuniversalidade que possibilita uma inteligência coletiva sem precedentes. A IA é o próximo degrau dessa escada, mas não é o topo. O topo, para a fé cristã, é sempre o encontro com o Deus vivo. Utilizemos a IA nesse caminho, e o Papa ao escrever sobre, tem nos ajudado a isso.