Causas dos Santos: a história não é uma “ameaça”, mas um diálogo entre Deus e a humanidade
Cabe à história a tarefa “titânica e nobre” de narrar o “como” das coisas; à Teologia cabe a responsabilidade igualmente essencial de revelar o “porquê”. No meio, o fluxo do tempo e a vida real, que Deus não anula, mas “provoca” por meio das figuras dos santos, “anticorpos históricos” e testemunho concreto de uma reciprocidade operativa entre dois âmbitos, a Teologia e a história, por muito tempo considerados incompatíveis. Essas foram algumas das reflexões apresentadas pelo bispo de Termoli-Larino, dom Claudio Palumbo, que na manhã desta terça-feira, 20 de outubro, abriu o segundo dia do congresso intitulado “A santidade na história”, organizado pelo Dicastério das Causas dos Santos e programado até o dia 21, no Instituto Patrístico Augustinianum, em Roma.
A história, “espaço teológico”
Em seu discurso de abertura, moderado pelo chefe do Dicastério, monsenhor Gianpaolo Rizzotti, dom Palumbo evocou uma perspectiva já delineada por Santo Tomás de Aquino, mas amplamente assimilada somente na era moderna: a história não é uma “ameaça da qual se defender”, mas sim um “espaço teológico no qual ocorre o diálogo entre Deus e a humanidade, entre a Igreja e o mundo contemporâneo”. Cultivar um olhar “sintético” entre a fé e o curso dos acontecimentos significa, portanto, viver “a missão que o Ressuscitado, no âmbito da história, confiou e confia à sua Igreja”.
“O que Atenas tem a ver com Jerusalém?”
O prelado reconheceu a aparente incompatibilidade entre os dois campos de estudo. “De um lado está a história: o reino da mudança, do contingente, do fragmento, onde tudo flui e nada permanece o mesmo. Do outro, encontramos a Teologia: o olhar voltado para o Eterno, o Imutável, o Absoluto que transcende o tempo. A pergunta é: como podem o transitório e o eterno dialogar?” Já no século II, a tentação era a de separá-los: “O que Atenas tem a ver com Jerusalém?”, perguntou o escritor e filósofo cristão Tertuliano. Com o tempo, porém, teólogos e historiadores desenvolveram a consciência da necessidade de diálogo. “Reconhecer a fronteira da diversidade” foi “o primeiro passo para descobrir que, apesar de falarem línguas diferentes, as duas disciplinas contemplam o mesmo mistério idêntico: o caminho do homem no mundo.”
Remover o “absurdo”
É na experiência da humanidade, de fato, que a proclamação kerigmática de Jesus ressoa. Ela se realiza no desenrolar dos eventos, dentro dos quais Deus se faz conhecido “falando aos homens como a amigos”, explicou dom Palumbo. “Se o cristianismo é a religião da intervenção de Deus na história, pode-se dizer que a categoria da história é introduzida nele precisamente por essa intervenção. A história se torna o próprio tecido da Revelação.” A Teologia, por sua vez, ofereceu-se ao estudo dos eventos humanos como “hermenêutica”, isto é, como a “ciência da interpretação”, removendo-os do “não sentido” de uma história que, para usar a imagem de Shakespeare, é “uma história narrada por um idiota, cheio de barulho e fúria, e sem sentido”.
“Autonomia mútua”
O princípio que une Teologia e história é, portanto, o da “autonomia mútua”, sem que uma seja subordinada à outra. “A história fornece à Teologia seu contexto real. Ela a lembra de que o homem não é uma ideia abstrata, mas um ser imerso nos desafios de seu tempo: pobreza, guerras, transições tecnológicas, mudanças culturais. A Teologia, por sua vez, fornece à história uma direção baseada em valores. Ela injeta no fluxo dos eventos históricos um desafio ético, uma lembrança da dignidade intrínseca do ser humano, que nenhum poder temporal pode pisotear.”
Teologia enraizada na experiência de vida
Na segunda parte de sua palestra, o bispo de Termoli-Larino abordou o valor da santidade, na encruzilhada entre Teologia e história. Entendida como “vida de perfeição cristã”, ela situa-se entre o devir histórico da humanidade e a busca por uma compreensão cada vez mais profunda dos conteúdos da fé cristã. “As numerosas figuras de santos, que a Igreja propõe à devoção, admiração e imitação de todos os fiéis, demonstram a influência recíproca que a Teologia e a história exercem continuamente”. Como afirmava o presbítero e teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, “não há verdadeira Teologia se ela não estiver enraizada na experiência vivida e santa”.
Perspectivas sobre o caminho do homem
Em conclusão, as duas disciplinas de estudo não se revelaram realidades incompatíveis, mas duas “perspectivas diferentes sobre o homem em seu caminho” e em sua relação com Deus. “Na história da Igreja, é evidente como os santos contribuíram para a compreensão do mistério revelado e para a compreensão da fé, mesmo que talvez não tenham sido ‘teólogos de profissão’ ou não tenham ocupado cargos acadêmicos. Uma contribuição inegável dada à Teologia, não apenas em razão de sua perspicácia especulativa, mas também de sua santidade vivida ou do carisma santo ao qual pertenciam”.
O método Acta Santorum
Após uma apresentação de monsenhor Sandro Corradini, ex promotor da fé do Dicastério das Causas dos Santos, dedicado à criação da seção histórica da Congregação dos Ritos e à reforma dos processos de beatificação e canonização, o padre jesuíta Robert Godding abordou as principais questões da pesquisa documental e arquivística, ilustrando seus instrumentos. Ele lembrou como a disciplina recebeu um impulso fundamental de Jean Bolland e da Acta Sanctorum, obra cujos princípios metodológicos permanecem válidos até hoje. A Praefatio Generalis delineou um método baseado na exploração de fontes, com o objetivo de catalogar os santos por meio de calendários e martirológios. Central era o princípio da exaustividade na coleta de testemunhos relativos a cada santo: não bastava examinar uma única Vita, escolhendo a mais antiga ou a mais completa; era necessário considerar todas as fontes disponíveis, ou pelo menos aquelas que forneciam elementos originais e informações não documentadas. Um projeto de pesquisa meticuloso que, explicou o padre Godding, nos ajuda a entender por que, em abril de 2025, a UNESCO incluiu a Acta Sanctorum e seus arquivos no registro internacional “Memória do mundo”.
Os desafios da digitalização e da IA
Uma mudança fundamental nos métodos de trabalho dos Bolandistas ocorreu em 1876, com a chegada do padre De Smedt, inspirado pelo renascimento das ciências históricas e filológicas na Alemanha. Não era mais suficiente confiar em um ou dois manuscritos para publicar um texto hagiográfico: a edição crítica agora exigia um levantamento de todos os manuscritos testemunhas, a fim de estabelecer a base do texto. Com o tempo, esses instrumentos evoluíram ainda mais graças à digitalização e à criação de bancos de dados eletrônicos. Olhando para os desafios futuros, o padre Godding enfatizou como a tecnologia da informação e, mais recentemente, a inteligência artificial transformaram a pesquisa. Por um lado, essas tecnologias permitem a identificação de dados de difícil acesso por métodos tradicionais e podem ajudar, por exemplo, a identificar plágio. Por outro lado, elas acarretam o risco de produzir informações imprecisas: quaisquer dados não acompanhados de uma referência às fontes devem ser verificados. Há também o perigo da disseminação de conteúdo falso, não apenas textos, mas também fotografias, vídeos e gravações de áudio.