Uma nova cultura em favor da evangelização
A Igreja foi constituída por Deus para ser sinal e canal de salvação para o mundo, para levar o Evangelho a toda criatura. Não há dúvidas de que “evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja” e que “Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade”, como afirmado pelo Papa Paulo VI em sua Evangelii Nuntiandi.
Porém, não bastam definições teóricas, é preciso olhar para a prática da Igreja e refletir sobre a intensidade e a qualidade da vivência de sua identidade e missão.
A primazia da coerência
Um grande risco que pessoas e instituições correm é o de, com os desafios cotidianos, desviarem-se da essência de sua identidade e missão.
Como Igreja, Corpo, e como pessoas batizadas, membros, é preciso sempre ter atenção ao modo como se vive, se de “acordo com a vocação à qual foi chamado” (Ef 4,1) ou não.
Jesus, em sua vida pública, revelando o que era necessário que os homens soubessem para viverem de acordo com o projeto do Pai foi muito claro ao ensinar que a dinâmica das relações deveriam se dar através do cuidado (cf. Lc 10,25-37) e do serviço (cf. Jo 13,13-15), especialmente dos mais vulneráveis, e que fazendo isso aos mais necessitados, diante de Deus seria considerado como feito ao próprio Cristo (cf. Mt 25, 35-45).
A Igreja, enquanto continuadora da missão de Jesus, deve se colocar diante da pessoas com as mesmas atitudes do “bom samaritano” cuidando de quem aparece ferido no seu caminho; com atitude de serviço ao próximo, como de quem se põe a lavar os pés, e diante de qualquer pessoa em dificuldade deve buscar prover o necessário como faria se fosse para o próprio Jesus. Nada disso é novidade a nenhum cristão, na teoria todos sabem que devem viver assim, mas o problema é que nem sempre essa é a prática das pessoas, e, como consequência, da Instituição.
A essa incoerência entre a fé professada e a prática, o Papa Francisco deu o nome de “cultura de abusos” e a definiu como sendo o antievangelho. Ela é a situação em que cada pessoa age buscando privilégios a partir das oportunidades que tem para servir ou sendo conivente e usando dos cargos que tem para acobertar o erro dos outros permitindo que pessoas sigam sendo prejudicadas. Ou seja, o contrário do evangelho que é servir, doar-se, cuidar e promover o outro.
O Santo Padre cunhou essa expressão “Cultura de abusos” após sua visita ao Chile, evento que ele descreveu como ocasião de sua conversão. E o que foi que ele viu ali a ponto de convertê-lo e fazê-lo usar uma expressão tão forte? Uma hierarquia que em vez de cuidar e servir, estava usando e servindo-se do povo de Deus, através de abusos de autoridade, econômicos, de consciência, espiritual e, em muitos casos, sexuais.
Na paradigmática “Carta ao Povo de Deus que peregrina no Chile”, o Papa Francisco disse que deveríamos dizer um “nunca mais à cultura de abusos e ao sistema de acobertamento que permite que ela se perpetue” e, mais do que isso, ele indicou o caminho a seguir:
“É necessário um esforço coletivo para promover uma cultura de cuidado que permeie a maneira como nos relacionamos uns com os outros, rezamos, pensamos e exercemos a autoridade — bem como nossos costumes, nossa linguagem e nossa relação com o poder e o dinheiro. Hoje, reconhecemos que a melhor resposta para a dor causada é o compromisso com uma conversão pessoal, comunitária e social — uma conversão que aprenda a ouvir e a cuidar, de modo especial, dos mais vulneráveis.”
O que Francisco escreveu em 2018 permanece urgente e atual. Recentemente, o Papa Leão XIV disse para a Pontifícia Comissão de Tutela do menor: “Meu venerado predecessor, o Papa Francisco, quis incorporar permanentemente o vosso serviço à Cúria Romana para recordar a toda a Igreja que a prevenção de abusos não é uma tarefa facultativa, mas uma dimensão constitutiva da missão da Igreja. (…) A vossa missão é ajudar a garantir a prevenção de abusos. No entanto, não se trata nunca apenas de protocolos ou procedimentos. Trata-se, antes, de ajudar a promover uma cultura de cuidado em toda a Igreja — uma cultura na qual a proteção de menores e de pessoas vulneráveis seja vista não como uma obrigação imposta externamente, mas como uma expressão natural da fé.”
Safeguarding, uma nova cultura
Toda cultura é constituída por três elementos: mentalidade, sensibilidade e prática. Promover uma cultura do cuidado exige mudar a mentalidade de “uso” e “privilégio” para a de “cuidado” e “serviço”. Exige favorecer a maturidade humana para que líderes não busquem no cargo ou nas pessoas uma “muleta” para suas próprias carências, e pressupõe a recusa em ser conivente com práticas abusivas cotidianas.
É importante que cada pessoa tenha atenção ao que foi alertado pelo Papa Francisco sobre a forma de se relacionar com os outros, de rezar, pensar, exercer autoridade e sobre os costumes, linguagens e relação com o poder e o dinheiro que se tem.
As instituições — dioceses, congregações e comunidades — devem estruturar esse cuidado sobre os quatro pilares do safeguarding (proteção): relações, espaços, processos e estruturas, sempre ancorados na Doutrina Social da Igreja, centrada na dignidade humana, zelando pela vida, pelo respeito, liberdade e consciência das pessoas.
Os ambientes eclesiais serão ambientes seguros e favoráveis ao anúncio do Evangelho de modo credível quando o cuidado e o serviço não forem apenas discursos, mas prática quando:
- nas diversas relações as pessoas não forem desrespeitadas em sua dignidade;
- os espaços físicos e digitais não forem ofensivos e perigosos a quem os frequenta;
- houver clareza dos processos a serem adotados, através de diretrizes e protocolos;
- existir uma estrutura com comissões e equipes que garantam que o processo de promoção da cultura do cuidado seja inserido na dinâmica cotidiana da instituição.
Algo sobre o qual os dois últimos Papas apontam como sendo central na vida da Igreja para que a sua missão aconteça precisa ter a atenção cotidiana de todos, tanto dos leigos, quanto do clero, tanto na vida pessoal, quanto na vida eclesial, em todas as comunidades, congregações religiosas, paróquias e dioceses.
Por fim, as palavras do Papa Leão XIV podem encerrar bem essa reflexão: “Antes de concluir, gostaria de reiterar que a proteção de menores e pessoas vulneráveis não é uma área isolada da vida eclesial, mas uma dimensão que permeia a pastoral, a formação, o governo e a disciplina. Cada passo dado nesta caminhada é um passo em direção a Cristo e a uma Igreja mais evangélica e autêntica.”
Maria Teresa R. Rosa
Assessora em prevenção de abusos e
promoção da cultura do cuidado
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