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Congresso da CRB Nacional: IA e o alerta aos desafios das relações humanas

A Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB Nacional) realizou, nos dias 10 e 11 de setembro de 2026, o 3º Congresso Internacional de Comunicação, na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo (SP). Com mais de 300 participantes, o encontro teve como tema “Inovação, Tecnologias Emergentes, Humanidades e Comunicação” e reuniu comunicadores, pesquisadores e representantes da Vida Religiosa Consagrada para refletir sobre as profundas transformações provocadas pelas tecnologias digitais.

Inteligência Artificial, algoritmos, cultura digital, ética, dignidade humana e novas formas de mediação estiveram entre os assuntos debatidos durante os dois dias. Para além das possibilidades oferecidas pela tecnologia, o Congresso colocou uma questão no centro das reflexões: como preservar a humanidade, o encontro e as relações em uma sociedade cada vez mais mediada por sistemas inteligentes?

Na abertura, a coordenadora-geral do Congresso e assessora de Comunicação da CRB Nacional, Ir. Neusa Santos, destacou a necessidade de criar espaços de discernimento diante dessas transformações. “Desejamos que este Congresso seja um espaço de encontro, escuta, aprendizado e construção de uma comunicação cada vez mais humana e comprometida com a vida.”

A mesa de abertura reuniu representantes da CRB Nacional, da Faculdade Santa Marcelina e de instituições eclesiais. A presidente da CRB Nacional, Ir. Maria do Disterro Rocha, participou do momento de acolhida aos congressistas.

Inteligência Artificial e os desafios de um novo tempo

A Conferência Magna “Inteligência Artificial, Algoritmos e Cultura Digital” foi conduzida pela Profa. Dra. Lucia Santaella, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A pesquisadora apresentou uma reflexão sobre o atual estágio de desenvolvimento da Inteligência Artificial e as transformações que essas tecnologias provocam na sociedade, na educação e nos processos comunicacionais. “Estamos em um momento de desenvolvimento da IA em que é preciso agir em um sentido ético e no desenvolvimento de certificação de guias e diretrizes para o uso da IA na educação.”

A conferência abriu um percurso de debates sobre os critérios éticos que devem acompanhar o desenvolvimento tecnológico. Ao longo da programação, as discussões avançaram para questões relacionadas ao poder dos algoritmos, às plataformas digitais, à dignidade humana e à responsabilidade diante das novas formas de comunicação.

Quando estar conectado não significa estar em relação

Entre as questões que atravessaram o Congresso esteve uma aparente contradição do nosso tempo: nunca houve tantas possibilidades tecnológicas de conexão e, ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a solidão, o isolamento e a fragilidade dos vínculos humanos.

A expansão da Inteligência Artificial acrescenta uma nova dimensão a esse cenário. Modelos conversacionais e sistemas capazes de simular diálogo, atenção e companhia começam a ocupar espaços antes reservados predominantemente às relações entre pessoas.

O desafio, portanto, não está apenas naquilo que a tecnologia consegue produzir, mas na maneira como sua presença pode interferir na experiência humana de encontro, escuta, pertencimento e comunidade.

É nesse horizonte que questões relacionadas à solidão, isolamento social, dependência digital, ansiedade, sofrimento psíquico e enfraquecimento dos vínculos passam a integrar uma reflexão mais ampla sobre comunicação e cultura digital. O debate exige cuidado para não atribuir à Inteligência Artificial, isoladamente, a causa desses fenômenos, mas compreender como determinados usos das tecnologias podem intensificar vulnerabilidades e transformar hábitos de convivência.

Para a Igreja e para a Vida Religiosa Consagrada, essa realidade também interpela a missão. Comunicar não significa apenas transmitir informações ou dominar novas ferramentas. Comunicação envolve presença, escuta, diálogo e construção de relações.

Cuidar da humanidade em um tempo de travessia

A presidente da CRB Nacional, Ir. Maria do Disterro Rocha, chamou a atenção justamente para o cuidado com a humanidade e as relações diante das mudanças contemporâneas.“Cada vez mais nós estamos aprimorando a comunicação na CRB para nos ajudar a perceber os desafios do tempo presente, discernir os vários caminhos por onde devemos caminhar. E neste tempo de travessia, ter uma atitude assertiva para cuidar da nossa humanidade, das relações e ir ao encontro de todos.”

As reflexões do Congresso reforçaram que as possibilidades abertas pela Inteligência Artificial precisam ser acompanhadas por responsabilidade, critérios éticos e discernimento. Mais do que perguntar o que as máquinas serão capazes de fazer, torna-se necessário perguntar o que acontece com a pessoa e com suas relações quando uma parcela crescente da experiência humana passa a ser mediada por sistemas inteligentes.

Próximo Congresso colocará solidão e relações humanas no centro

Essa questão terá continuidade em 2027. Durante o encontro, a CRB Nacional anunciou oficialmente que o próximo Congresso Internacional de Comunicação será realizado nos dias 16 e 17 de setembro de 2027, com o tema: “Comunicação e Inteligência Artificial: conexões, solidão e o futuro das relações humanas”.

A escolha da temática desloca o debate da tecnologia em si para suas consequências humanas e sociais. O Congresso pretende investigar como sistemas inteligentes estão modificando a presença, o diálogo, a convivência, a formação de comunidades e a própria percepção do que significa estar em relação com o outro.

Entre as questões que deverão receber atenção estão a companhia artificial, o isolamento relacional, a dependência dos ambientes digitais, a saúde mental e os impactos de uma comunicação cada vez mais mediada por algoritmos. A pergunta ganha relevância diante do crescimento de sistemas conversacionais capazes de manter diálogos personalizados e simular características próprias da interação humana. Até que ponto essas tecnologias podem auxiliar pessoas e ampliar possibilidades de comunicação? E em que circunstâncias podem favorecer substituições problemáticas das relações humanas, aprofundar o isolamento ou criar novas formas de dependência emocional e tecnológica?

Verdade e confiança também estarão em debate

O Congresso de 2027 também abordará outro conjunto de riscos relacionados à Inteligência Artificial: os impactos sobre a verdade e a confiança.

Deepfakes, clonagem de voz, mídia sintética, fraude digital, campanhas automatizadas de influência e produção de desinformação desafiam o jornalismo, as instituições e a sociedade. Em um ambiente no qual imagens, vozes e vídeos podem ser artificialmente produzidos com crescente realismo, reconhecer aquilo que é verdadeiro torna-se um desafio comunicacional e ético. A programação será organizada em quatro eixos: mediação algorítmica, relações humanas e esfera pública; integridade da informação, verdade e confiança pública; produção cultural, economia da atenção e autonomia comunicacional; e governança, justiça e futuro global da Inteligência Artificial.

Proteção de dados, transparência, supervisão humana, diversidade cultural, liberdade de escolha, sustentabilidade, soberania digital e concentração do poder tecnológico também integrarão as discussões.

Que humanidade queremos preservar?

Ao projetar o Congresso de 2027, a CRB Nacional propõe ampliar uma reflexão que ultrapassa o campo técnico. Se a Inteligência Artificial modifica os modos de informar, trabalhar, aprender e produzir conteúdos, sua presença crescente também exige atenção aos modos de conviver, criar vínculos, cuidar, escutar e reconhecer o outro.

 

 

 

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