São Paulo, Missão Belém: resgate de 30 mil vidas do ‘inferno’ das ruas e das drogas
Era uma tarde de sexta-feira, 3 de outubro. O calor e o ruído da Zona Leste de São Paulo mal alcançavam a viela número 6 da comunidade Nelson Cruz, no Belenzinho, onde se encontra a “casa-mãe” da Missão Belém. Mais do que um endereço, o “barraco” de madeirite, onde tudo começou em 2005, é a materialização da simplicidade que rege o carisma da comunidade. Neste ambiente austero, mas transbordante de fé, encontramos os fundadores, o missionário italiano Padre Gianpietro Carraro e a paulistana Irmã Cacilda da Silva Leste.
O chão daquele “barraco” é o mesmo que sustenta a escolha radical de viver no meio dos mais pobres, oferecendo um testemunho vivo do Verbo que se fez carne para salvar a humanidade. Na Missão Belém, o Evangelho não é apenas pregado; ele é vivido no resgate diário de homens e mulheres da rua e da dependência química, restituindo-lhes a dignidade perdida.
Na entrevista concedida ao O SÃO PAULO, (Jornal da Arquidiocese de São Paulo) por ocasião da celebração dos 20 anos da Missão Belém, é possível conhecer um pouco mais daqueles que sentiram o chamado de Deus para iniciar essa obra de evangelização que é um eco concreto e atual do amor incondicional para com os pobres que trata a primeira exortação apostólica de Leão XIV, Dilexi te, sobre o amor que se dobra perante os mais necessitados. Leia a entrevista completa.
Para iniciar, quem é o Padre Gianpietro?
Padre Gianpietro Carraro – Eu nasci em uma pequena cidade perto de Veneza, pertencente à Diocese de Pádua. Desde criança, eu participava da igreja. Aos 4 anos, já era coroinha. Lembro-me de que não alcançava o altar, então eu o via de baixo, e dali também via toda a igreja. Na minha primeira Comunhão, olhando para o padre, veio um pensamento puramente de criança: “Eu vou ser padre”. Passaram-se 52 anos desse fato, e aqui estou. Nunca voltei atrás, nunca houve um dia em que me arrependi.
Fui para o seminário em Pádua. Em meu coração, porém, sempre esteve presente o pensamento missionário. Naquela pequena cidadezinha, havia uma igrejinha. Nela, havia uma pequena caixinha com uma imagem de ferro de uma criança com feições africanas. Diziam-nos: “Faça um pequeno sacrifício, coloque sua moedinha para o moreto”, que significa “pequena criança africana”. Eu me apaixonei pelo Brasil, pela Amazônia, porque havia um missionário que tinha vivido na Amazônia.
Eu me sentia feliz, caminhando em meio a todas as dificuldades da juventude, até que chegou o dia em que fui ordenado, em 21 de abril de 1987, em Chioggia, uma pequena diocese próxima a Veneza. Eu me preparava para ser missionário e partir da minha terra, pois, na minha mente, se eu fosse, não voltaria.
Em seguida, conheci a comunidade de missionários italianos. Ver uma missionária limpando o chão com alegria me impactou profundamente. Após uma experiência de 15 dias com eles, senti um forte impulso interior e iniciei um discernimento vocacional. Entendi que Deus me chamava para uma família muito maior.
Comecei minha experiência missionária na comunidade, intensificando a Pastoral de Rua. Com o Padre Gianpietro, começamos a buscar onde estava “Belém”, ou seja, quem eram os mais pobres. Fui a primeira jovem a coordenar um grupo para se aproximar do mundo da rua. Dormíamos nas ruas e nos viadutos para estar com eles. Foi uma “atração irresistível” que nos impeliu para o nascimento da Missão Belém.
O que motivou o início da Missão Belém?
Padre Gianpietro – Após ser incardinado na Arquidiocese de São Paulo, em 2001, eu fui trabalhar em uma área que se estava tentando iniciar uma comunidade paroquial em Taipas [Região Brasilândia]. Contudo, sempre que ia ao centro da capital, era impossível não se chocar com a realidade do povo de rua que vivia, sobretudo, na Praça da Sé. Fazíamos o que se chama Pastoral de Rua. Levávamos um cafezinho e criávamos um laço. Logo entendemos que era preciso mergulhar nesse mundo para viver com eles.
Assim, nos últimos dias de 2001 para 2002, começamos nossa missão de rua, morando e dormindo na rua. Eles começaram a pedir ajuda, que os acolhesse em minha casa. Eu vivia em um barraquinho em Taipas. Pensei: “Vou acolher vocês no meu barraco”, pois o pensamento era nunca dizer “não”. Comecei a receber três ou quatro em casa. Acabaram me roubando o barraco e eu fiquei para fora. Transformaram o lugar em uma “biqueira”. Quando voltei de uma viagem, tive que dormir na igreja.
Compreendemos, então, que era preciso uma casa de acolhida, um ambiente e uma metodologia específicos. Assim, decidimos iniciar a Missão Belém em 1º de outubro de 2005. Entendemos que era preciso começar algo específico para acolher este povo. Começamos aqui, exatamente neste barraco onde você está agora [Comunidade Nelson Cruz, no Belenzinho].
Irmã Cacilda – No início, nossa vida estava cada vez mais envolvida por eles. Começamos a acolher nos nossos barracos, depois tentamos buscar trabalho ou fazer alguma coisa. Fomos conhecendo mais gente e apanhamos bastante até encontrar o jeito certo de lidar com eles. A rua não é de flores. Todo mundo poetiza, mas a rua não tem nada de poesia; é muito duro, muito concreto. Porém, era ali que Jesus pedia para nos encarnarmos.
Vendo o povo encostado no paredão do vale, sobretudo as crianças, ele nos falou. As crianças foram um sinal para nós. Tínhamos essa interrogação no coração: “Como alcançar esse povo? Como alcançar esse mundo?” Atravessando o Viaduto do Chá por cima, um grupo de meninos de rua veio na nossa direção e logo se atraíram pelos crucifixos. Começaram a puxar, a grudar na gente, e fomos entendendo: “Deus está falando”. Tivemos muitas experiências, como dormir com um grupo deles lá embaixo. Numa manhã dessas, um dos meninos, o Rafaelzinho, virou para o Padre e disse: “Padre, você vai me levar para sua casa, né?” Ele me chamou e disse: “Cacilda, será que a gente pode, de repente, abrir uma casa, fazer uma casa com esses meninos?” Eu olhei e disse: “Meu Deus, vamos!” Havia uma senhora que sempre emprestava o sítio para nossos retiros de jovens. Explicamos, e ela autorizou. Assim começamos.
Quando chegamos no período de 2005, eu estava fazendo uma experiência na Favela do Moinho. Lá, fizemos muitas experiências profundas com os pobres: pessoas muito sofridas, muitos jovens envolvidos com o tráfico e a bandidagem, e as crianças no meio disso tudo. Foi lá que tomamos a consciência mais profunda de que Deus estava nos direcionando a dedicar todas as forças aos pobres. Na oração, pedindo a Deus luz, e em tantas experiências que não dá para falar agora, chegamos à conclusão no primeiro de outubro: esse era o caminho que deveríamos seguir e ver o que Deus faria.
Por que Belém?
Padre Gianpietro – O nome Belém remete ao lugar onde Jesus nasceu. Belém é uma gruta, um estábulo. É ali que vemos Jesus nascer pobre no meio dos pobres. Deus se encarna pobre no meio dos pastores, que eram marginalizados. Isso conquistou o nosso coração, pois sempre quisemos ir ao encontro dos pobres no meio dos pobres. É por isso que você vê este barraco de madeirite; quisemos que ele ficasse o mais parecido possível com o dia em que chegamos. Nosso pensamento é sempre nos encarnar no meio dos pobres para evangelizar a partir deles.
O que é evangelizar com e para os pobres?
Padre Gianpietro – É possível tocar com a mão a força do Evangelho: Jesus é o Salvador de verdade. Ele salva do lixo, da droga, do desespero. Quando eles vêm para a Missão, descobrem, antes de tudo, uma vida nova. Essa vida nova se manifesta na cama, na comida, no banho e na acolhida familiar calorosa que oferecemos. Eles sentem que Deus os está amando.
Um acolhido da Sé me contou que acordava à noite e se dava beliscões para ter certeza de que não era um sonho. “Eu não estou sonhando. É verdade. Eu estou neste lugar. Estou dormindo na cama. Estou comendo. Estou feliz”.
Não existe alegria na rua. Quando alguém vem para a Missão, pode haver pobreza, mas há muita fraternidade, espiritualidade e acolhida. Eles meditam o Evangelho do dia, escolhem um propósito, escrevem-no na mão e tentam vivê-lo. Isso os faz entrar em uma nova dimensão.
Irmã Cacilda – É para os pobres, com eles. É, de fato, falar de Jesus, testemunhar o amor de Deus. Mas sentimos que Jesus nos pediu essa evangelização de uma maneira bem concreta: encarnar-se, assumir na própria carne a vida dos pobres. Fazer as escolhas pessoais e comunitárias sempre em vista dos pobres.
Lembro que estávamos na rua, logo no primeiro ano de comunidade. Eu me afastei, virei e vi a cena: nós todos no meio deles. A palavra que Deus me inspirou foi: “Encarnem-se. É isso que eu quero de vocês. Não é tanto o que vocês falam, mas é o que vocês vivem com eles. Entrem no meio sem medo, mergulhem”. Essa também foi uma palavra-chave para o Padre João Pedro no início e para mim, ao abrir a missão no Haiti.
Somos chamados a encarnar a pobreza de Deus no meio desse povo e assumir a vida deles. É como se Deus nos pedisse para experimentar um pouco dessa experiência que Jesus fez. Entrar nessa realidade, abraçando a vida de pobreza. Por isso, a Missão Belém procura os pobres nos “bolsões infernais de pobreza”. Poderíamos morar em um lugar mais tranquilo, mas sentimos que Deus nos pede isso: “Venham para uma favela”. Compartilhamos com eles a agonia da polícia e do tráfico, o susto de viver em um ambiente assim. Sentimos que Deus nos tira os aspectos da nossa humanidade, e passamos a sentir as dores deles, que agora são nossas também.
A evangelização que Deus nos pede, através do carisma Belém, é essa primeira identificação de se encarnar. É buscar um jeito humilde de viver na alimentação, no vestuário, no ambiente e assumir essa vida dos pobres. A partir daí, vem o anúncio, com a catequese e tudo o mais, mas, sobretudo, descer na pobreza. Sentimos muito isso. Ir para a rua é sentar-se na calçada e escutar, acolher o coração daquele homem, mulher ou criança que sofre, que às vezes só quer deitar-se no seu colo e chorar.
Nossa evangelização sempre se resumiu nesses longos períodos na rua. Chegamos a viver seis meses na rua direta, eu e Padre João Pedro. Depois, criamos uma fraternidade itinerante na rua, justamente para estar com os pobres e acolher o coração deles, pois eles são a “pupila dos olhos de Deus”, o coração sofredor de Jesus. Portanto, Belém é a encarnação. A evangelização de Belém é encarnar a vida dos pobres, assumi-la para si e viver, mesmo com nossos limites, essas dores.