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Quaresma e Campanha da Fraternidade: um Itinerário de conversão e encarnação

A Santa Igreja, através da pedagogia do Ano Litúrgico, convida-nos, a partir da Quarta-feira de Cinzas, a mergulharmos no tempo favorável da Quaresma. São quarenta dias de um retiro espiritual coletivo, sustentados pelo tripé da oração, jejum e caridade. Este itinerário não é um fim em si mesmo, mas um caminho de configuração a Cristo em seu mistério pascal.

​Unida a este tempo, a Campanha da Fraternidade (CF) não esvazia as práticas quaresmais; pelo contrário, ela as encarna. A CF é o exercício espiritual que nos impede de viver uma fé desencarnada, convocando-nos a uma conversão que gera mudança de vida e, sobretudo, um olhar misericordioso sobre as realidades sociais.

O cristão, discípulo do Verbo Encarnado, não pode viver alheio à realidade em que está inserido.

​A CF nasceu da inspiração profética de Dom Eugênio de Araújo Sales, em 1962, na comunidade de Nísia Floresta (Arquidiocese de Natal-RN). Seu objetivo permanece atual: promover a solidariedade em defesa da dignidade da pessoa humana, reconhecendo em cada irmão e irmã a imagem e semelhança de Deus.

​Lamentavelmente, temos assistido nos últimos anos a uma crescente intolerância — muitas vezes alimentada por influências externas ao Evangelho — que ataca esta “pérola” da Igreja no Brasil. Aqueles que acusam a CF de promover ideologias políticas ignoram que ela é, em essência, a aplicação do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Cuidar dos pobres não é ideologia, é mandamento. Jesus selou esta prioridade ao proclamar: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).

​Neste ano, a CF nos provoca com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema bíblico: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). À luz do mistério da Encarnação, somos chamados a refletir que a moradia digna é um direito inerente à dignidade humana e uma prioridade na construção do Reino. Como bem sabemos, é árduo o caminho da oração para quem não possui o mínimo necessário para subsistir. Não podemos contemplar a Deus se fechamos os olhos ao irmão que padece ao relento.

​Ecoando o magistério do Papa Leão XIV(cuja voz nos alerta diversas vezes contra a polarização), somos convocados a um jejum que passe também pela língua. Em um tempo assolado por ofensas e ódio, tanto no âmbito religioso quanto social, o Pontífice nos exorta:
​“Peçamos a força de um jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro.”

​Cultivar a gentileza na família, no trabalho e nas redes sociais é um exercício quaresmal urgente. É preciso silenciar o ruído das distrações cotidianas para que a Palavra de Deus encontre docilidade em nossos espíritos.

​Desejo a todos uma santa e fecunda Quaresma. Caminhemos com o Senhor em Sua Via-Sacra, mas sem desviar o olhar dos irmãos que experimentam o Calvário na própria carne através da falta de moradia e do abandono!

Somente ao lado dos crucificados de hoje poderemos experimentar, verdadeiramente, a alegria da Ressurreição. Isso, sim, será vida nova na graça!

 

 

 

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