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Para tudo há um Tempo de Deus

Deus ama esperar com o coração dos pequeninos, e fá-lo envolvendo-os no seu desígnio de salvação. Quanto mais belo é o desígnio, tanto maior é a esperança. E, com efeito, o mundo vai em frente assim, impelido pela esperança de tantas pessoas simples, desconhecidas, mas não para Deus, que não obstante tudo acreditam num amanhã melhor, pois sabem que o futuro está nas mãos d’Aquele que lhes oferece a maior esperança! (Leão XIV)”

Na narrativa humana, o “Tempo de Deus” se contrapõe ao nosso tempo cronológico (Chronos), sendo um tempo oportuno e de plenitude (Kairós), que transcende a contagem linear e se manifesta na história para curar, transformar e colocar tudo em seu lugar, revelando a eternidade e a graça divina onde a lógica humana de espera e recompensa é superada pela misericórdia, pois Deus age em um plano mais amplo e perfeito.

Neste nosso primeiro programa de 2026, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe a reflexão “Para tudo há um Tempo de Deus”:

“Estamos refletindo, nos primeiros dias do ano, o Tempo de Deus na narrativa humana, porque Deus na história da salvação, não fala para Ele mesmo, mas para um povo, mergulhado num tempo e numa história concreta. Deus, portanto, fala nos acontecimentos da história salvífica. Diz assim o livro do Eclesiastes: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1). Deus tem um propósito dentro do tempo, de nossa história concreta. Na plenitude dos tempos, Cristo irrompe na história humana para salvar todo o homem que criou. Por isso, não fala aos anjos, mas para homens concretos, que vivem dentro de uma história, vivem uma caminhada concreta, que nascem num determinado período da história e vivem uma realidade bem particular.

Catecismo da Igreja Católica, no número 53, aponta que o desígnio divino da Revelação se realiza, ao mesmo tempo, «por meio de ações e palavras, intrinsecamente relacionadas entre si», conforme aponta o Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática Dei Verbum, número 2. E Deus, dessa forma, vai se esclarecendo mutuamente pelas suas incontáveis comunicações na história, para um homem concreto, inserido num povo, num núcleo de convívio. “Comporta uma particular «pedagogia divina»: Deus se comunica gradualmente ao homem e prepara-o, por etapas, para receber a Revelação sobrenatural que faz de Si próprio e que vai culminar na Pessoa e missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo. Santo Ireneu de Lião fala várias vezes desta pedagogia divina, sob a imagem da familiaridade mútua entre Deus e o homem: «O Verbo de Deus […] habitou no homem e fez-Se Filho do Homem, para acostumar o homem a apreender Deus e Deus a habitar no homem, segundo o beneplácito do Pai»(CIC,53)[1].

Mas, quando os tempos estão maduros, o machado posto à raiz das árvores como diz São João Batista, quando a aurora se avizinha, quando Deus providencia a maturação do tempo, aproxima-se definitivamente o seu “kairós”, como um acontecimento decisivo. O Catecismo da Igreja Católica, no número 65, lemos assim: «Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos pelo seu Filho» (Heb 1,1-2). Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. N’Ele, o Pai disse tudo. Não haverá outra palavra além dessa. São João da Cruz, após tantos outros, exprime-o de modo luminoso, ao comentar Heb 1,1-2: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. […] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade» (33).

Pe. Lucas Matheus Mendes, sacerdote diocesano da Arquidiocese de Porto Alegre, no sul do Brasil, tem apresentado belas reflexões, sobretudo num programa de sua apresentação na Rádio Católica Aliança FM, falando sobre o “Tempo de Deus”[2]. Pe. Lucas aponta assim: “Vivemos num mundo que quer tudo agora. Pressa, urgência, ansiedade. Mas Deus nos chama a olhar para algo maior: o tempo de Deus. Ele não corre, Ele não se atrasa — Ele sabe o que faz e quando faz. O tempo de Deus é diferente do nosso”.

Pe. Lucas continua as reflexões, que nos ajudam nesse período de transição de ano e período por vezes instável, de viagens, de incertezas, de correrias infinitas. Diz que “as Escrituras nos lembram que Deus tem um compasso que ultrapassa nossa cronologia humana. O relógio d’Ele não é mero ponteiro — é providência e graça. Não é que Deus demora… Deus sabe quando agir no momento certo. A nossa fé cresce justamente quando aguardamos com confiança”. É preciso entender “as demoras de Deus” em nossa vida estressante e cheia de atividade. “Tudo tem o seu tempo…”.

É preciso entender que, se todos as obras são boas, há o seu tempo ainda mais, conforme o Livro de Eclesiastes que diz: “Tudo o que ele fez é apropriado a seu tempo” (Ecl 3, 11). Deus fez e faz as coisas no seu devido e apropriado tempo. Não há erro na história, não há descompasso, não há arritmia da história salvífica.  O versículo 12 do Livro de Eclesiastes, continua a refletir de modo bem sugestivo: “Também (Deus) colocou no coração do homem o conjunto do tempo, sem que o home possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim”.  Deus planejou tempos de espera, tempos de ação, tempos de colheita e tempos de descanso. Para tudo há um tempo. “Há um momento – momento apropriado e ajustado – para tudo e um tempo para todo o propósito debaixo da terra” (Ecl 1,1). Cada estação da vida de cada um está sob o olhar amoroso de Deus, e porque não dizer, no comando do Criador e Redentor nosso, no seu agir e atuação no resgate de cada ser criado e potencialmente redimido pela Sua graça. Deus quer salvar a todos, mas precisa de nossa decisão.

“A paciência é uma virtude de fé. Esperar em Deus não é ficar parado.

Esperar em Deus é confiar, orar, perseverar e entregar o resultado nas mãos d’Ele. Deus nos convida a deixar de lado a ansiedade e a abraçar a confiança profunda de que Deus está presente mesmo no silêncio, Deus está trabalhando mesmo quando não vemos, Deus tem um propósito para cada momento da sua vida. Muitas vezes, o que pensamos ser atraso, na verdade é preparo espiritual e a maturidade que Deus espera de nós. Antes de agir, Deus nos prepara para agir com sabedoria e amor”, aponta o mesmo autor.

É preciso, segundo reflexões de Pe. Mendes, pároco da Igreja das Dores de Porto Alegre que se tornou Basílica, “responder com fé no tempo de Deus.

Deus não nos chama a apressar o plano d’Ele. Ele nos chama a confiar no plano d’Ele. “Em meio à pressa do mundo, há um tempo que não se mede no relógio, mas no coração”, diz Mendes. A resposta cristã ao tempo de Deus é: confiança profunda, oração constante e obediência amorosa. Deus não aparece em nossa história humana apenas na dimensão do “Cronos”, mas em “kairós”, que se traduz como momento especial da graça de Deus, que se manifesta no aqui e agora, não no passado, nem no futuro. Cabe ao homem estar atento à passagem de Deus em sua vida, história salvífica. Deus passa constantemente em nossa história pessoal, concreta e comunitária, porque aprouve a Deus salvar o homem mergulhando num povo. Não quis salvar isoladamente, mas constituindo-o num povo, o Povo Santo de Deus.

Que a nossa resolução e meditação seja que Deus nos dê um coração que aceite o tempo d’Ele, que nos ensine a esperar sem desespero, a orar sem desistir, e a amar sem condições.

Que cada momento de demora seja para nós um aprendizado de fé. E que, ao final, possamos dizer como Jó: “Sei que tudo podes; nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42,2).

Nós vivemos marcados pelo tempo cronológico — relógios, calendários, prazos. Mas Deus nos chama a viver no seu tempo, que não se mede em minutos, mas em fé, fidelidade e confiança. O tempo humano quer resultados imediatos; o tempo de Deus nos forma, nos ensina e nos molda no amor.

A Providência divina que Guia a nossa caminhada. Deus não age ao acaso.

Ele prepara caminhos, sustenta na dificuldade, fortalece na fraqueza e renova a esperança no coração daqueles que confiam nele, em sua ação dentro de nossa história mais genuína. O tempo de Deus não é prematuro nem atrasado — é o tempo exato da Graça. Como diz o salmista: “Os teus caminhos, Senhor, são amor e fidelidade para aqueles que guardam a tua aliança (Sl 25,10). Há, pois, um encontro entre fé e tempo. Nesta verdade, descobrimos que cada dia, cada programação, cada palavra e gesto transmitido foi iluminada pela presença do Senhor que caminha ao nosso lado”.

 

 

 

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