Campanha da Fraternidade 2026
FRATERNIDADE E MORADIA
“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14)
Como todos os anos, na Igreja Católica do Brasil, vamos vivenciar neste ano de 2026 um tema da Campanha da Fraternidade. O tema será: “FRATERNIDADE E MORADIA”.
Aproveito um artigo do Padre Rodolfo Chagas Pinho (Assessor da Comissão Episcopal Vida e Família CNBB e Secretário-Executivo Nacional da Pastoral Familiar) para apresentar conceitos e idéias fundamentais para a reflexão, a iluminação bíblica e as práticas pastorais e sociais do tema da CF 2026.
1. Introdução: moradia como lugar teológico e desafio pastoral
A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), insere a Igreja no Brasil num caminho de conversão que toca um dos direitos humanos mais elementares: o direito de ter onde morar com dignidade. A CNBB explicita que a CF 2026 deseja “despertar a consciência sobre o direito à moradia digna como expressão concreta da fé cristã”, mostrando que refletir sobre casa, rua, favela, aluguel e periferia é também fazer teologia e pastoral.
2. Ver: a realidade da moradia e seu impacto nas famílias
O “ver” proposto pelas Campanhas da Fraternidade não é um levantamento neutro de dados, mas um olhar de fé sobre a realidade. O Brasil vive um quadro persistente de desigualdade habitacional. Dados da Fundação João Pinheiro indicam um déficit habitacional em torno de 5,9 a 6 milhões de domicílios, o que corresponde a cerca de 8% das moradias ocupadas no país, com forte peso do “ônus excessivo com aluguel” sobre as famílias de baixa renda.[4]
O Censo 2022 mostra que 16,39 milhões de pessoas viviam em aglomerados subnormais (favelas, palafitas e assentamentos precários), aproximadamente 8,1% da população brasileira, distribuídas em mais de 12 mil assentamentos.[5] Nesses territórios, a casa é frequentemente pequena, superlotada, com infraestrutura insuficiente, saneamento precário, risco de enchentes, deslizamentos ou violência urbana. A realidade das periferias urbanas – com sua rede de solidariedade, mas também com suas vulnerabilidades – constitui hoje um dos principais contextos em que a Pastoral Familiar é chamada a atuar.
Do ponto de vista pastoral, a moradia torna-se um indicador transversal: famílias que mudam constantemente de endereço pela pressão do aluguel ou por despejos; casais jovens que adiam o casamento por não conseguirem “começar a vida” com uma casa minimamente estável; famílias que vivem em coabitação forçada (mais de um núcleo familiar por domicílio), com impacto na privacidade, no descanso, na educação dos filhos; lares marcados por barulho constante, insegurança, falta de espaço para estudo e oração.
3. Iluminar: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) e a casa como sacramento de comunhão
O lema da CF 2026 – “Ele veio morar entre nós” – remete ao coração do Evangelho: o mistério da Encarnação. O prólogo de João afirma que o Verbo “armou a sua tenda” entre nós (Jo 1,14), evocando a antiga tenda do encontro no deserto e anunciando uma nova forma de presença de Deus: não mais encerrado em um templo de pedra, mas habitando na carne humana, nas casas, nas aldeias, nas cidades, nas mesas partilhadas. A moradia humana torna-se, assim, lugar teológico.
A partir desse mistério, a CF 2026 interpreta o direito à moradia não apenas à luz da sociologia ou do direito, mas da fé: se Deus quis “morar” no meio da humanidade, toda forma de negar casa, expulsar, segregar ou tornar pessoas “sem lugar” contradiz o projeto divino. A Igreja no Brasil insiste que a reflexão sobre moradia se articula com a encarnação de Cristo que “veio morar entre nós”, especialmente entre os pobres e excluídos.
Não penseis que basta para a nossa salvação trazer à Igreja um cálice de ouro e pedraria depois de ter despojado viúvas e órfãos (…) se queres honrar deveras o corpo de Cristo, não consintais que esteja nu. Não o honreis aqui com vestes de seda, enquanto fora o deixais perecer de frio e nudez. Porque o mesmo que diz ‘este é o meu corpo’, é quem disse ‘me vistes faminto e não me deste de comer’(…) aprendamos pois a pensar com discernimento e a honrar a Cristo como Ele quer ser honrado (…)
Na teologia do Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, o ser humano é chamado a realizar-se no “dom sincero de si mesmo” (GS 24), e o matrimônio é apresentado como comunidade de vida e amor, na qual os esposos se doam mutuamente e se abrem à geração e educação dos filhos (GS 47–52). Nesse horizonte, a casa não é um detalhe exterior, mas o espaço concreto onde essa comunhão de pessoas se torna visível e se desenvolve. Sem casa, a “Igreja doméstica” fica ferida em sua base.
4. Agir: incidência da CF 2026
É preciso perguntar, explicitamente, nos encontros com casais, nos itinerários de preparação para o matrimônio, nos grupos de famílias: Onde vocês moram? Como são as condições da casa? Há insegurança, risco, sobrecarga de aluguel? As crianças têm espaço para estudar, brincar, descansar?
Essas perguntas não são curiosidade sociológica, mas exercício de caridade pastoral. A CF 2026 convida comunidades, pastorais e grupos a refletirem sobre a moradia como direito fundamental, articulando fé e solidariedade. A Pastoral Familiar e outros grupos podem ser um “sensor” privilegiado da realidade habitacional da paróquia, identificando famílias em situação de maior vulnerabilidade.
Ao integrar o clamor por moradia digna em sua reflexão e ação, a Pastoral Eclesial se torna mais fiel ao Vaticano II e ao caminho sinodal da Igreja: uma pastoral que vê a realidade, ilumina-a com a Palavra e com o Magistério e age para que cada família tenha um lugar onde viver, crer, amar e esperar.
Somos convidados a acolher com alegria e esperança toda a reflexão, iluminação teológica da CF 2026, como também colaborar com os organismos e forças que buscam viver a dignidade humana em sua forma evangélica e integral.
Dom José Valmor Cesar Teixeira, SDB
Bispo Diocesano
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