Do calvário à ressurreição: o papel das Comunidades Terapêuticas no combate às drogas
Neste 20 de fevereiro, o Brasil volta o seu olhar para uma realidade que não escolhe classe social, credo ou região: a dependência química. O Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo gera oportunidades de reflexão e ação diante dos dados estatísticos. Na linha de frente para apresentar uma possibilidade de mudança perante os efeitos das drogas, encontram-se as Comunidades Terapêuticas.
De acordo com o levantamento mais recente e as estimativas da Confederação Nacional de Comunidades Terapêuticas (CONFENACT), somados aos dados históricos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), estima-se que existam mais de 3.000 unidades em operação em todo o território nacional.
A força da fé: as Comunidades Terapêuticas católicas
A Igreja Católica desempenha um papel vital no processo de cura e ressocialização dos dependentes químicos. Entidades como a Fazenda da Esperança, presente em todos os estados brasileiros e em diversos países, e a Pastoral da Sobriedade, atuam como exemplos dessa rede de misericórdia. A Fazenda da Esperança atualmente mantém mais de 90 unidades em solo nacional e fundamentada em sua pedagogia no tripé “espiritualidade, convivência e trabalho”, proporciona acolhida para mais de 4 mil pessoas. A Pastoral da Sobriedade é um dos organismos ligados à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), levando esse olhar para dentro das paróquias. Ela utiliza um método de 12 passos fundamentados na Palavra de Deus para prevenir a dependência e recuperar vidas. Atualmente, esse órgão revela a existência de 863 grupos de autoajuda em 153 dioceses, representando mais de 55% das circunscrições eclesiásticas do Brasil.
Existem milhares de comunidades terapêuticas confessionais em áreas urbanas e rurais do país. Algumas sobrevivem apenas com doações, enquanto outras têm acesso a recursos públicos oriundos dos governos municipais, estaduais e federal.
O testemunho do Missionário Emerson sobre sua recuperação
O relato do missionário Emerson, fundador da Comunidade Coração Misericordioso, em Alagoas, é a personificação do “calvário à ressurreição”. Ele descreve sua origem como um sinal profético de sua missão atual:
“Fui adotado ainda bebê, colocado na porta da igreja chamada Nossa Senhora das Graças, em Maceió, com 15 dias de nascido; acolhido pelo Cônego Luiz Santos à época”.
Ele relata que, após enfrentar as sequelas da poliomielite e um longo período de dor, viveu 16 anos de vida de drogadição, um caminho iniciado aos 13 anos de idade. Hoje, ele compreende que esse sofrimento foi pedagógico: “Deus estava permitindo eu padecer daquela realidade para que, ao acolher os que batem à nossa porta, eu não os julgasse, mas os entendesse”.
A Comunidade Coração Misericordioso vive sob o signo da entrega total, pois, como afirma Emerson, “a gente se mantém da providência, não temos vínculos com questões de órgãos públicos, vivemos de doações”. Com o limite de apenas 12 acolhidos em sua casa-mãe, o trabalho foca na restauração integral da alma através da espiritualidade carismática. A eficácia desse serviço é coroada pela alegria vocacional: “Estamos indo levar o discípulo Victor, que é membro da comunidade e está ingressando no propedêutico, indo para o seminário menor”. Esse fruto reafirma que, ao encontrar um novo sentido na vida, o acolhido que vivia sob o efeito das drogas pode se tornar um missionário para resgatar outros.
O retrato da dor: números no Brasil
A urgência desse trabalho é confirmada por dados estatísticos preocupantes. De acordo com as informações do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad/Unifesp), divulgadas para o biênio 2025/2026:
– Drogas Ilícitas: Cerca de 2,8 milhões de brasileiros são considerados dependentes químicos.
– Cocaína e Crack: Estima-se que 11,4 milhões de brasileiros já usaram cocaína ou crack ao menos uma vez na vida. A prevalência de dependência específica de cocaína atinge cerca de 1,19 milhão de pessoas (14 anos ou mais).
– Álcool: Aproximadamente 73,9 milhões de brasileiros (42,5% da população com 14 anos ou mais) relataram uso de bebidas alcoólicas, e cerca de 19,9 milhões apresentam critérios de transtorno por uso de substâncias (TUS) ou uso problemático.
– Mortalidade: Atualmente, o álcool é a substância que mais mata e interna. Dados da Fiocruz (2024/2025) indicam que o consumo de álcool causa, em média, 12 mortes por hora no Brasil.
Rede de Apoio
As instituições que assumem como missão o tratamento da dependência química são sustentadas por uma rede de apoio que une a caridade cristã à responsabilidade pública. Atualmente, esse suporte institucional é viabilizado também pelo Governo Federal, que mantém contratos ativos com mais de 500 instituições por meio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), garantindo o financiamento de vagas sociais para aqueles que não têm como pagar o período de internação em uma Comunidade Terapêutica. Nesse cenário, a Federação Nacional de Comunidades Terapêuticas Católicas e Instituições Afins (FNCTC) desempenha um papel fundamental como articuladora técnica e espiritual, zelando para que o acolhimento católico siga os padrões necessários para que as entidades continuem recebendo essa verba.