Paz, diálogo e direitos humanos: oração e apelos de Leão XIV
A quinta viagem apostólica internacional do pontificado de Leão XIV foi a França de 25 a 28 de setembro. Uma visita com momentos intensos, testemunhos sentidos, multidões em júbilo, reflexões sobre o futuro, sempre com todos no coração.
Destacamos três momentos: o grande encontro com os jovens em Paris na sexta-feira 25, a vigília de oração em Lourdes no primeiro dia naquele santuário no sábado 26 e o Rosário no domingo 27. “Para que o mundo tenha vida”, foi o lema da viagem.
Um vínculo fraterno com quem não partilha a mesma fé
Foram mais de 80 mil os jovens que acolheram e saudaram o Santo Padre em França na noite de 25 de setembro em Paris.
A vigília de oração no ‘Stade de France’, em Saint-Denis, encerrou o primeiro dia da visita de Leão XIV àquele país.
A celebração foi estruturada num formato de diálogo, com dois jovens a dirigirem as suas inquietações diretamente ao Papa.
Chloé, estudante de farmacologia de 25 anos ligada ao coletivo ‘La Cité Céleste’, questionou Leão XIV sobre como conciliar a força do ímpeto missionário com a convivência com pessoas de outras crenças nos bairros populares da Ilha de França.
Na resposta, o Papa indicou que o Evangelho “não leva ao conflito, mas convida sempre ao perdão”.
“Cultivar um vínculo fraterno com aqueles que não partilham a nossa fé contribui, pois, para a construção da sociedade; além disso, pode transformar-se num exercício de fé e caridade, pois é impossível testemunhar Cristo sem amar aqueles a quem queremos anunciá-lo”, disse o Papa.
“A mensagem cristã não constitui um obstáculo à convivência fraterna; pelo contrário, promove-a, pois convida livremente cada um a ouvir uma boa notícia de paz e salvação. Da mesma forma, a nossa missão não está em contradição com o respeito pelas outras religiões, porque a Igreja não rejeita nada do que nelas se encontra de verdadeiro e de santo”, acrescentou.
François, estudante de agronomia e dirigente escutista na Borgonha, expressou a dificuldade da juventude em discernir a sua vocação num mundo onde a ansiedade e a incerteza “fragilizam o entusiasmo” perante missões que parecem desmesuradas.
Leão XIV reconheceu que a “precariedade dos projetos de futuro”, a “fragilidade das relações”, o “cansaço digital” e a “ansiedade perante as alterações climáticas” são estados de espírito reais que marcam a atual geração.
“Não existe fracasso do qual Deus não nos possa levantar: a sua misericórdia é a nossa alegria. No entanto, falastes sobre ansiedade e incerteza como obstáculos ao vosso entusiasmo. São estados de espírito muito comuns, devido à precariedade dos projetos de futuro, ao caráter provisório dos afetos e à fragilidade das relações. A estes sentimentos juntam-se outros que pesam sobre a vossa geração, como, por exemplo, o cansaço digital e a ansiedade perante as alterações climáticas ou a situação económica e internacional. Sim, é preciso prestar atenção a estes sentimentos. Convido-vos, queridos jovens, a manter o coração aberto perante os sofrimentos dos vossos amigos. Ao mesmo tempo, a experiência da fragilidade – de qualquer fragilidade – torna-se oportunidade de testemunho para um discípulo de Cristo. Quem segue Jesus no caminho do serviço humilde e gratuito é liberto da angústia e reencontra um novo entusiasmo, experimentando alegria e paz interiores: sentimentos que não são passageiros nem subjetivos, mas enraizados na certeza da fé da qual juntos damos testemunho como Igreja”.
O evento incluiu o espetáculo ‘Nas pegadas dos santos de França’ que evocou figuras como a Santa Teresinha do Menino Jesus, em ambiente de oração.
Rezar pela paz, direitos humanos, pelo fim do ódio
Na noite de sábado 26 de setembro, o Papa Leão viveu um dos momentos mais aguardados da sua viagem a França: a oração na Gruta das Aparições de Massabielle. Leão XIV dirigiu a sua oração à Senhora de Lourdes rezando pela paz, pelos direitos humanos e pelo fim da violência e do ódio.
“Ó Senhora de Lourdes, Imaculada Conceição, recorremos a Vós com confiança neste lugar abençoado onde, com tanta doçura e ternura, falastes a Santa Bernadette, humilde filha do povo de França, para transmitir ao mundo uma luminosa mensagem de oração, conversão e esperança; Vós sois a Mãe que Jesus nos deu e estais atenta às nossas necessidades.
Rogamos-vos, Senhora Nossa, pela França, de quem sois a Padroeira e a quem, ao longo de tantos séculos, envolvestes com a Vossa proteção. Alcançai para o vosso povo o dom da concórdia fraterna. Que ele construa uma sociedade harmoniosa, banindo toda a violência e todo o ódio, permitindo a cada um trabalhar, constituir a própria família e viver até ao fim com tranquilidade e serenidade. Que os mais desafortunados e os mais pobres sejam sempre apoiados. Alcançai para a França governantes sábios e generosos, dispostos ao sacrifício de si mesmos, capazes de enfrentar os desafios e desejosos de servir o bem comum. Que eles a mantenham em paz no concerto das nações. Que façam ouvir a sua voz para promover a defesa dos direitos humanos fundamentais, bem como a paz no mundo, rejeitando para sempre as lógicas da guerra.
Santa Virgem Maria, apresentamos-vos o Povo de Deus que caminha neste país que tanto marcastes com a vossa proximidade. Renovai a fé e o fervor das famílias cristãs, tão queridas ao vosso coração, para que vivam dia após dia a partir da presença de Jesus, da sua graça e do seu amparo nas dificuldades que atravessam. Que estejam generosamente abertas à vida, e que Deus suscite nelas vocações, nomeadamente sacerdotais e religiosas. Concedei à vossa Igreja em França a capacidade de indicar, sobretudo aos mais jovens, o caminho luminoso do Evangelho para edificarem a sociedade justa e fraterna a que aspiram.
Por fim, Mãe amorosíssima, apresentamos-vos as nossas intenções pessoais mais urgentes, em particular as das pessoas doentes e sofredoras, com os acompanhantes, que em conjunto vieram buscar força e cura. Confiamos-vos os nossos entes queridos e os nossos falecidos. Afastai, nós vos suplicamos, todos os obstáculos que ainda nos separam do vosso amado Filho, e fazei que Ele reine em todos os corações.
Ámen.”
O Santuário de Lourdes é um dos principais centros de peregrinação mundial desde as aparições marianas a Santa Bernadette Soubirous em 1858.
A luz da esperança nunca nos abandona
Milhares de velas, num mar de luz e esperança na noite de 27 de setembro na Santuário de Lourdes. O Papa afirmou ser “comovente ver o povo fiel, de geração em geração, responder com amor e confiança ao terno convite da Virgem Maria”.
“Como é reconfortante ouvir os cristãos entoarem hinos cheios de fervor e fé, e caminharem, com uma vela acesa na mão, em direção à sua Mãe do Céu, a Mãe que Jesus nos deu na Cruz”, afirmou Leão XIV.
O Santo Padre na sua intervenção após a recitação do Rosário e a Procissão, sublinhou que aquela luz que atrai os peregrinos é a luz da esperança que nunca nos abandona, em particular, aos milhares de doentes que ali se dirigem todos os dias.
“Esta luz que nos guia e nos atrai é a da esperança que nunca nos abandona, mesmo enquanto peregrinamos nesta vida, muitas vezes marcada por provações, mas já habitada pela alegria de nos sabermos filhos de Deus, amados e salvos por Jesus. As pessoas doentes são testemunhas privilegiadas desta transfiguração da existência através da fé e do amor a Deus e ao próximo. É preciso vir aqui fazer esta procissão convosco, queridos doentes, para entender plenamente a sua realidade”, declarou.
Para Leão XIV ter serenidade e alegria na provação é um milagre que só Deus nos pode dar, pois “concede a graça de voltar o nosso olhar para um futuro mais distante”.
“E se tal milagre é possível – o de suscitar serenidade e alegria na provação –, é porque Deus nos concede a graça de voltar o nosso olhar para um futuro mais distante, para além do nosso horizonte terreno, um futuro de felicidade infinita em Deus, que temos a certeza de alcançar se permanecermos firmes na fé e na caridade”, salientou o Papa.
E para permanecermos firmes na fé e na caridade, Maria, a “Imaculada Conceição resplandece como um farol na noite”, disse o Santo Padre.
O amparo e a intercessão de Maria, “não são secundários para o cristão que deseja acolher a graça da Redenção, conquistada pelo sangue de Jesus, e lutar contra o mal”. Ela é a estrela do mar – Stella maris – que nos socorre nas tribulações”, disse o Papa citando São Bernardo.
Durante a celebração, um grupo de voluntários apresentou as intenções dos peregrinos ao Papa e depositou-as perante a imagem de Nossa Senhora.
Leão XIV, eleito a 8 de maio de 2025, já visitou República de San Marino (22 de agosto); Espanha (06-12 de junho de 2026); Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial (13-23 de abril de 2026); Mónaco (28 de março de 2026); e a Turquia e o Líbano, com peregrinação a İznik por ocasião do 1700º aniversário do I Concílio de Niceia (27 de novembro-02 de dezembro de 2025).
Ainda em 2026, o Papa vai visitar o Uruguai, a Argentina e o Peru, de 6 a 17 de novembro, na sua primeira viagem pontifícia à América Latina, com regresso à diocese peruana de Chiclayo, onde foi bispo.