Fulton Sheen e a luta contra o preconceito racial: uma caridade que reconhece a dignidade de todos
“Abaixo o ódio de classe! Abaixo todo ódio! Paremos de olhar as coisas de cima para baixo e comecemos a levantar o olhar, cada vez mais alto, para Deus!” Com essas palavras, pronunciadas em Los Angeles durante a Segunda Guerra Mundial, Sheen fazia um apelo à paz entre judeus, protestantes e católicos e procurava combater a lógica da hostilidade coletiva. Seu pensamento, porém, também se estendia à questão racial, fundamentado na convicção de que a dignidade humana não depende da cor da pele, da condição social ou da aprovação de uma maioria.
Um hospital para mães negras
Um dos exemplos mais concretos desse compromisso ocorreu em 1938, quando Sheen recebeu uma herança da duquesa Brady, uma benfeitora que havia conhecido em Lourdes. Segundo Thomas C. Reeves, em America’s Bishop: The Life and Times of Fulton J. Sheen, o sacerdote destinou uma parcela significativa do dinheiro à Diocese de Mobile, no Alabama, para ajudar as Irmãs da Misericórdia a oferecer assistência obstétrica a mulheres negras.
Naquele período, Mobile vivia sob o regime de segregação racial, e mulheres negras não tinham acesso aos hospitais destinados aos pacientes brancos. O programa apoiado pelos recursos doados por Sheen posteriormente foi associado ao Hospital Martin de Porres. A iniciativa cresceu ao longo dos anos e, em 1950, foi inaugurado um hospital maior, após uma ampla campanha de arrecadação de fundos da qual Sheen continuou participando.
Segundo Reeves, o interesse do sacerdote pelo projeto estava também relacionado a Fanny Washington, sua cozinheira e governanta afro-americana.
Nos anos seguintes, Sheen destinou os direitos autorais de seus livros e os pagamentos recebidos por suas aparições públicas a iniciativas e instituições católicas no Alabama. Entre elas estavam o apoio à Missão do Imaculado Coração de Maria, em Hillview, além de contribuições para capelas e projetos missionários itinerantes na Carolina do Norte e no Texas.
Em 1942, depois de receber o convite de uma mulher negra, foi a uma pequena cidade da Carolina do Norte e pregou uma missão nos degraus da escola pública. No ano seguinte, percorreu o Alabama com um sacerdote em um trailer, falando “nas esquinas das ruas e nos campos de milho a quem quisesse ouvi-lo”, segundo Reeves.
Esses episódios ocorreram em uma época na qual os católicos negros frequentemente viviam à margem da vida eclesial e civil norte-americana. As iniciativas mostravam a disposição de Sheen de utilizar sua influência, os recursos arrecadados e sua notoriedade em favor de comunidades que tinham pouco acesso a esse tipo de apoio.
A dignidade humana como fundamento
A ajuda concreta oferecida por Sheen às comunidades católicas negras estava ligada a uma convicção moral e teológica mais ampla. Em A Declaration of Dependence, de 1941, ele sustentava que os direitos humanos não tinham sua origem no governo e não poderiam ser subordinados às preferências de uma maioria.
Seu fundamento, segundo essa perspectiva, estava na dignidade da pessoa humana diante de Deus. As autoridades públicas poderiam reconhecer e proteger esses direitos, mas não poderiam, segundo critérios elementares de justiça, atribuir menos valor a um grupo de pessoas do que a outro.
Inserida na tradição cristã, essa visão levou Sheen a compreender o preconceito racial como uma recusa em reconhecer o outro, antes de tudo, como filho de Deus.
De Mobile a Rochester
Quando Sheen se tornou bispo de Rochester, em 1966, encontrou uma cidade marcada pelas consequências da desigualdade racial também no Norte dos Estados Unidos. As revoltas de julho de 1964 haviam exposto tensões relacionadas às práticas policiais, às condições de moradia, ao emprego e à exclusão de parte da população dos benefícios econômicos de uma cidade industrial.
Organizações católicas de Rochester já haviam começado a responder a essa realidade. O Conselho Católico Inter-racial havia sido criado em 1960, enquanto iniciativas diocesanas ofereciam assistência a crianças negras e a famílias porto-riquenhas.
Durante seu episcopado, Sheen deu apoio público a várias dessas iniciativas. A imprensa católica de Rochester relatou que, entre 1967 e 1968, ele fundou uma organização que posteriormente daria origem à Bishop Sheen Ecumenical Housing Foundation, agência dedicada à habitação popular que continua atuando na região para enfrentar a falta de moradias dignas para pessoas de baixa renda.
A questão habitacional, contudo, não era exclusivamente um problema do Sul. Nas cidades do Norte, a discriminação podia persistir por meio do acesso desigual a aluguéis, compra de imóveis, financiamentos e crédito, além de práticas informais que restringiam os locais onde determinadas famílias podiam viver.
Em Rochester, Sheen também participou do debate público sobre emprego e exclusão racial na Eastman Kodak, então o maior empregador privado da cidade. Segundo artigo publicado pela revista America, ele esteve entre aqueles que pressionavam a empresa a ampliar o acesso de trabalhadores negros à formação profissional e ao emprego.
Uma visão missionária universal
A dimensão internacional da atuação de Sheen reforçou essa perspectiva. Entre 1950 e 1966, ele foi diretor nacional da Sociedade para a Propagação da Fé nos Estados Unidos. A função o levou a apresentar aos católicos norte-americanos uma visão da Igreja que ultrapassava culturas, línguas e fronteiras nacionais.
Durante viagens realizadas em 1960, visitou a Argentina e o Brasil, passando especialmente por Buenos Aires e Rio de Janeiro. Na cidade brasileira, chamou sua atenção o contraste entre a extrema riqueza e a extrema pobreza: a proximidade entre os bairros costeiros mais valorizados e áreas de grande miséria colocava em questão qualquer identificação simplista entre sucesso econômico e virtude moral.
Depois, viajou ao Quênia, onde visitou comunidades e postos missionários marcados por doenças, isolamento e profunda insegurança. Celebrou uma Missa em uma igreja missionária cujo chão era de terra batida e esterco e recordou posteriormente o encontro com uma mulher, mãe de dez filhos, abandonada pelo marido.
A viagem também o levou a Johannesburgo, onde entrou em contato direto com a realidade do apartheid. Relatos daquela visita descrevem sua determinação em encontrar, apesar da resistência das autoridades, um catequista negro em uma área submetida à segregação.
Durante um congresso missionário realizado em St. Louis, em 1953, Sheen relacionou explicitamente o caráter universal da missão católica à rejeição de qualquer hierarquização baseada na raça. Segundo relato retrospectivo publicado pelo National Catholic Register, ele afirmou aos missionários: “Não prestem atenção à raça ou à cor da pele, pois não existem pessoas inferiores no mundo quando são filhos da graça por meio dos sacramentos”.
No mesmo discurso, fez referência à fé dos muçulmanos em um único Deus e à sua veneração de Jesus e Maria. Também falou da China como um país que permanecia aberto a uma renovação da fé, apesar das dificuldades que enfrentava.
O “próximo” que não escolhemos
A trajetória de Fulton Sheen não se enquadra perfeitamente nas categorias políticas contemporâneas. Ele não foi um ativista dos direitos civis nem um teórico do racismo estrutural nos termos que seriam desenvolvidos posteriormente pelos movimentos sociais. Seu compromisso manifestou-se sobretudo em homilias, iniciativas filantrópicas, viagens pastorais e apelos à consciência.
Ainda assim, essas ações tiveram consequências concretas em seu contexto histórico: apoio à assistência obstétrica onde a segregação restringia o acesso de mulheres negras aos cuidados médicos; auxílio a comunidades missionárias pouco atendidas pelas instituições públicas; e iniciativas relacionadas à moradia e ao emprego em Rochester.
A história de Jerome Gary Cooper é um exemplo desse modo de atuação. Nascido em Mobile, no Alabama, em uma época marcada pela segregação, Cooper ingressou na Universidade de Notre Dame em 1954 graças a uma bolsa de estudos e formou-se em finanças quatro anos depois.
Posteriormente, ingressou no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e, durante a Guerra do Vietnã, tornou-se o primeiro oficial afro-americano dos Marines a comandar uma companhia de infantaria em combate. Mais tarde, chegou ao posto de general de divisão e foi nomeado embaixador dos Estados Unidos na Jamaica, onde serviu de 1994 a 1997.
Segundo a revista America e a base biográfica BlackPast, uma recomendação de Fulton Sheen ajudou Cooper a obter a bolsa de estudos para Notre Dame.
Para Sheen, essa era a lógica do “próximo”. Não necessariamente a pessoa que escolhemos porque pensa como nós ou se parece conosco, mas aquela que é colocada diante de nós — muitas vezes de maneira inesperada e desconfortável.
É justamente nessa pessoa, acreditava Sheen, que o cristão pode reconhecer a imagem de Deus. A caridade, nessa perspectiva, não se limita àqueles que escolhemos como próximos: ela começa quando somos capazes de reconhecer no outro, independentemente de raça, classe ou condição social, alguém cuja dignidade procede do próprio Deus.