O legado jesuítico no Espírito Santo : O Aldeamento de Reis Magos (1580)
Por volta de 1580, no litoral norte da então Capitania do Espírito Santo, jesuítas avistaram do mar uma praia (atual Praia Grande, no municípo de Fundão) e, à esquerda, as águas do rio conhecido atualmente com o nome de rio Reis Magos (hoje, no distrito de Nova Almeida, cidade de Serra) que, ali, desagua no mar. Ainda à esquerda deles, notaram um platô com excelente vista para o rio, para o mar e para o sertão (o continente, ou interior, como se nomeava antigamente). Nesse ponto mais elevado, eles fincaram um Cruzeiro, marco inicial do estabelecimento da Missão de Santo Inácio.
O Provincial dos jesuítas no Brasil, o padre José de Anchieta (1534-1597), visitou a missão em 1585 e decidiu que ela seria consagrada aos Santos Reis Magos. Assim, a missão jesuitica se tornou a Aldeia de Reis Magos, cuja função era aldear e catequizar indígenas da região ou “descidos” do sertão. Os primeiros foram os Tupiniquim, seguidos de outras tribos que ali se reuniram em volta da sede do aldeamento, morando em suas próprias ocas e liderados por seus caciques que, junto aos jesuítas, geriam a localidade – por volta de 1730, cerca de oito mil indígenas residiam no aldeamento.
Atribui-se ao irmão jesuita Belchior Paulo (1554-1619), vindo de Portugal para o Brasil, a realização da pintura do quadro Adoração dos Reis Magos, que terminou por volta de 1598 – por isso, é considerado um dos quadro a óleo sobre madeira mais antigos do Brasil (talvez o mais antigo). Uma inscrição no retábulo do altar – onde se encontra a pintura – possui um registro em algarismos romanos com a data “1701”, sugerindo que o altar-mor ficou pronto nesse ano.
A igreja foi concluída em 1615 e, no decorrer do século XVII, construíram a torre sineira e a residência – com arquitetura em quadra de dois pisos. Porém, em 1759, D. José I, de Portugal (1714-1777), declarou que os membros da Companhia de Jesus estavam proscritos de seu império – que abarcava extensas áreas na Ásia, África e Brasil (conhecido como América portuguesa). Reunidos às pressas, em 1761, os jesuítas da Capitania foram embarcados para a Europa e suas posses divididas e vendidas.
A igreja de Reis Magos permaneceu funcionando como santuário, mas a residência se tornou local de diversos órgãos públicos, até uma cadeia. Apesar da fidelidade da comunidade do entorno ao orago da igreja e à sede do antigo aldeamento, o tempo, o descaso e falta de recursos quase transformaram a belíssima construção em ruínas. Felizmente, em 1940, o edifício foi tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – seguido de diversas restaurações.
Entre 2022 e 2024, a parceria entre comunidade, indígenas da Aldeia de Santa Cruz, além da iniciativa privada e pública promoveu o restauro e readequação do complexo arquitetônico, culminando com a inauguração do Centro de Interpretação Aldeia de Reis Magos. Desde então, mais de duzentas mil pessoas já o visitaram. É o legado histórico preservado; é a comunidade remanescente valorizada; é a religiosidade viva.
Tal obra magnânima e magnífica, um Opus Magnum, remeteu-me à materia publicada no Vatican News, em que Pe. Gerson Schmidt destacou o extrato de um documento papal intitulado Populorum Progressio (26 de março de 1967), que o Papa São Paulo VI (1897-1978) redigiu após visitar a Terra Santa. Nela, lembra Pe. Gerson, o Santo Padre afirma que a Igreja católica sempre cuidou dos povos para os quais destinava a proclamação da fé em Cristo: “Proclamar o Evangelho não significa desprestigiar as organizações, a cultura, o trabalho, o progresso dos povos. Os missionários da nossa fé católica construíram, não só igrejas, mas também asilos e hospitais, escolas e universidades”.
Um extrato do documento papal, disponibilizado pelo Pe. Gerson versa que os missionários ensinaram aos nativos a maneira de tirar melhor partido dos seus recursos naturais, protegeram-nos, com frequência, da cobiça dos estrangeiros. Sem dúvida que a sua obra, pelo que tinha de humano, não foi perfeita e alguns misturaram por vezes a maneira de pensar e de viver do seu país de origem, com a pregação da autêntica mensagem evangélica. Mas também souberam cultivar e promover as instituições locais. Em muitas regiões foram contados entre os pioneiros do progresso material e do desenvolvimento cultural.
* Bárbara Dantas é Doutora em História (PPGHIS/UFES) e Mestre em Artes (PPGA/UFES). Atualmente, é coordenadora das Ações Educativas do Centro de Interpretação Aldeia de Reis Magos (Nova Almeida, Serra) e do Centro de Interpretação Fazenda de Araçatiba (Viana), ambos localizados no Estado do Espírito Santo – Brasil, instituições que fazem parte do Roteiro Jesuítico do Espírito Santo.