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A primeira reitora de um santuário: testemunhar o Evangelho por meio da escuta

Anna Medeossi tem um olhar vivo e determinado, gentileza na voz e nos gestos, uma sabedoria serena e profunda. Arquiteta, natural de Gorizia, talvez não imaginasse aquilo a que a vida a chamaria há quase um ano: ser a primeira mulher no mundo a dirigir um santuário. Um pioneirismo que adquire um significado ainda mais forte pelo lugar onde se encontra: Notre-Dame de Santa Cruz, em Orã, na Argélia, um país de esmagadora maioria muçulmana. As imagens do santuário do qual é reitora deram a volta ao mundo por ocasião da beatificação dos Mártires da Argélia.

Da arquitetura ao cuidado do santuário

Sua chegada a Santa Cruz, onde hoje também vive como consagrada na Ordo Virginum da Diocese de Orã, não se deu como reitora, mas como arquiteta. “Na verdade, cheguei a Notre-Dame de Santa Cruz como arquiteta – conta ela – respondendo ao pedido do bispo de Orã, Jean-Paul, para colaborar com o trabalho de renovação do santuário em 2017”.

Dom Jean-Paul é hoje o cardeal Jean-Paul Vesco, arcebispo de Argel. Daquele canteiro de obras nasceu um vínculo que dura há nove anos: “Também colaborei na organização da beatificação, que coincidiu com a inauguração do santuário renovado”. Sua função nasceu de uma necessidade concreta. Em Santa Cruz, explica ela, nunca houve um reitor, mas crescia cada vez mais a necessidade de uma presença estável que cuidasse do lugar.

Viver juntos em paz

Santa Cruz tem um ritmo particular. Há uma peregrinação diocesana anual e, “quando tudo corre bem”, uma Missa por mês. No restante do tempo, é um lugar frequentado sobretudo por muçulmanos.

“É um santuário para os muçulmanos”, esclarece. “Eles vêm visitá-lo às dezenas, às centenas, no verão e nos fins de semana. Por isso, é importante que tenha alguém para acolhê-los e ajudá-los a descobrir o que é uma igreja, mostrando que somos irmãos e testemunhando ao mundo que é possível viver juntos em paz.”

Símbolo dessa vocação é a esplanada diante do santuário, rebatizada como Esplanade du vivre ensemble en paix, ou seja, “Esplanada do viver juntos em paz”, criada um ano após a aprovação, pela ONU, do dia internacional dedicado a esse tema.

Maria, caminho de diálogo

“O santuário foi construído na época colonial. Poderia ter permanecido como uma ruína daquele período, um lugar de uma memória ferida, e, no entanto, é um lugar muito amado pelos habitantes de Orã. É um sinal de um caminho a ser percorrido juntos rumo ao futuro.” Um sinal de esperança.

A relação com o encontro de oração ecumênico e inter-religioso do Papa Leão em Notre-Dame d’Afrique, em Argel – com a inscrição na ábside que convida a rezar pelos irmãos muçulmanos -, e a lembrança da visita de Bento XVI ao Santuário de Meryem Ana Evi, a “Casa de Maria”, na Turquia, onde a maioria dos que rezam é muçulmana, levam à pergunta sobre o papel de Maria.

“Certamente Maria – observa – é um caminho de diálogo, porque também é venerada na tradição muçulmana. Na realidade, muitas pessoas, pelo menos em Santa Cruz, que não tem a mesma história de Notre-Dame d’Afrique, vêm realmente por turismo. É um lugar belíssimo, acima da cidade de Orã, com uma paisagem maravilhosa.”

E justamente a beleza se torna um instrumento de encontro: “É bonito ver como a beleza do lugar, e também o interior da capela, aquele instante de surpresa diante da beleza do local, ajuda a entrar em diálogo, a encontrar a paz. E é a partir daí que se pode começar a se encontrar”.

Uma fraternidade no cotidiano

“Trabalho com muçulmanos”, continua a reitora, “e, no santuário, todas as pinturas, todas as cenas da vida de Maria, foram realizadas por artistas argelinas muçulmanas. E, no meu dia a dia, todos os trabalhos de manutenção são feitos com empresas locais. E acredito que a fraternidade também começa por aí. Eles aceitam colaborar, trabalhar em uma igreja. Isso não é algo óbvio.”

A acolhida gera uma inversão de narrativa: “Muitas vezes, o que me surpreende é o desejo deles de dizer que, sim, a presença desta igreja, dos cristãos na Argélia, é um sinal para o mundo”, um sinal de que a Argélia, um país muçulmano, é um povo de paz, um povo que deseja a tolerância.

Estar à escuta

Testemunhar concretamente a fé é o que importa para Anna Medeossi. “Para mim, testemunha-se exatamente como na Europa, como em qualquer lugar: sendo quem se é, procurando viver o Evangelho plenamente com quem está diante de você, não com palavras, mas com fatos.”

Viver na Argélia, afirma, é estimulante porque obriga à escuta: “Estar à escuta daquilo que o outro lhe diz, da imagem que o outro lhe devolve de você mesmo, e saber que você é sempre julgado pelo amor. Eles reconhecem se você fala com verdade, se é sorridente, se é compreensivo”.

É um caminho de humanidade: “Testemunhar a fé é procurar crescer juntos em humanidade, no respeito pela diferença, com profundidade. Nascem belas amizades quando se pode conversar com sinceridade”.

A misericórdia como verdadeiro realismo

Pensando na mensagem que o Papa Leão lançou no Meeting de Rimini, contrapondo ao “falso realismo” de quem defende o rearmamento e o fechamento diante do inimigo o “autêntico realismo” do amor e da misericórdia, Medeossi observa:

“Também pensei naqueles pequenos gestos do cotidiano que exigem tanta misericórdia, e tudo começa ali. Como reitora, começa com o acolhimento dos turistas, e frequentemente acontecem gestos das pessoas que dariam vontade apenas de repreender com um olhar severo e talvez até de se irritar. Em vez disso, dar o passo da misericórdia, procurar encontrar uma maneira diferente de dizer as coisas, muitas vezes abre um caminho nos corações. E, com alguém que teria ido embora irritado, nasce, em vez disso, uma relação. É assim. Com um instante de misericórdia.”

 

 

 

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