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A esperança de uma Amazônia ferida: “Leão XIV sabe onde dói em nós”

A próxima Visita Apostólica do Papa Leão XIV ao Peru, que durará sete dias em novembro e incluirá uma parada em Pucallpa, está gerando grande expectativa entre as Igrejas da Amazônia. Para os bispos de Iquitos e Puerto Maldonado, dom Miguel Ángel Cadenas e dom David Martínez de Aguirre, o retorno de Robert Prevost ao país onde realizou grande parte de sua missão pastoral será muito mais do que uma celebração: uma oportunidade de colocar novamente no centro da Igreja as feridas da Amazônia, a dignidade de seus povos e a necessidade de uma Igreja missionária e sinodal próxima dos mais vulneráveis.

Em diálogo com o programa «León XIV vuelve a casa», ambos os prelados concordaram que Pucallpa poderia se tornar um lugar de onde o Papa se dirige a toda a região Pan-Amazônica e, de forma mais ampla, à Igreja universal.

Pucallpa, uma voz para a Amazônia

Para dom Miguel Ángel Cadenas, vigário apostólico de Iquitos, a escolha de Pucallpa dá continuidade ao caminho iniciado por Francisco com sua visita a Puerto Maldonado em 2018. Ele considera especialmente significativo que Leão XIV tenha conhecimento em primeira mão da realidade peruana e da experiência pastoral em lugares como Chulucanas, Trujillo e Chiclayo. Em sua opinião, a mensagem que ele transmite da selva poderá moldar o rumo da Igreja Amazônica e de toda a região Pan-Amazônica nos próximos anos.

“Para os bispos da Amazônia, é um triunfo que ele possa vir a uma cidade como Pucallpa e, de lá, dirigir-se ao mundo. A mensagem que ele nos traz em Pucallpa deixará sua marca na Igreja Amazônica, não apenas no Peru, mas em toda a região Pan-Amazônica nos próximos anos.”

As feridas da Amazônia

Um dos principais temas que dom Cadenas espera que esteja presente na mensagem papal é a situação dos povos amazônicos e os problemas socioambientais que enfrentam, especialmente à luz das consequências do extrativismo.

Ao abordar as reflexões do Santo Padre na encíclica Magnificat humanitas, o prelado alertou que a mensagem papal na floresta tropical terá ressonância à luz dos abusos socioambientais sofridos pelos povos indígenas: “Na Amazônia, a exploração dos recursos naturais é completamente injusta. Isso terá um forte impacto no discurso que Leão XIV poderá apresentar sobre a dignidade humana e o cuidado com a criação”.

De Pucallpa, acrescentou, Leão XIV poderá chamar a atenção de toda a humanidade para uma realidade marcada pela vulnerabilidade das comunidades indígenas, pela degradação ambiental e pelas consequências sociais das atividades extrativistas que nem sempre garantem justiça às populações locais.

Um Papa que conhece o Peru

Para ambos os bispos, o fato de Leão XIV conhecer o Peru por dentro dará especial força à sua mensagem. O vigário apostólico de Iquitos destacou sua experiência missionária e sua sensibilidade para com as pessoas humildes e os lugares onde o Evangelho precisa ser proclamado.

Martínez de Aguirre, vigário apostólico de Puerto Maldonado, também recordou sua estreita relação com Prevost quando este era bispo de Chiclayo e enfatizou que ele conhece as realidades do litoral, da serra e da selva.

“Ele falará conosco onde sabe que nos fará bem, onde estamos sofrendo; ele sabe qual palavra precisamos ouvir”, afirmou.

De Puerto Maldonado a Pucallpa: Caminhando Juntos

Dom Martínez de Aguirre entende a visita como uma continuação do processo iniciado por Francisco em Puerto Maldonado, onde simbolicamente começou o caminho para o Sínodo da Amazônia. Esse processo posteriormente contribuiu para uma renovação eclesial mais ampla, ligada ao Sínodo sobre a Sinodalidade.

Para o bispo, a sinodalidade significa recuperar uma dimensão essencial da Igreja: caminhar juntos, ouvir e discernir em comunidade.

“O Papa Francisco chegou ao Peru e seu primeiro encontro começou em Puerto Maldonado. Ele iniciou essa visita dizendo: ‘Aqui começa o Sínodo da Amazônia’… Posteriormente, ele fez do Sínodo da Amazônia um campo de provas para a Igreja Universal e, após o Sínodo da Amazônia, lançou este Sínodo sobre a Sinodalidade.”

“A sinodalidade que Francisco e Leão XIV nos lembram não é algo novo: é uma tentativa de recuperar o que há de mais genuíno na Igreja”, observou ele. “E o Papa Leão, seu modo de ser e seu modo de agir — seja como missionário, como agostiniano, como superior dos agostinianos, mais tarde como bispo em Chiclayo e quando serviu como prefeito em Roma — personifica esse estilo de Igreja sinodal”, explicou o prelado.

Unidade e missão

Dom Martínez de Aguirre também identifica dois aspectos-chave da espiritualidade de Leão XIV: unidade e missão. Sua formação agostiniana, explicou, é profundamente marcada pela vida comunitária e pela comunhão. Mas essa unidade também deve se traduzir em uma Igreja capaz de alcançar aqueles que sofrem.

A tragetória missionária de Prevost, acrescentou, expressa precisamente essa disposição de deixar a própria terra para encontrar outros e proclamar o Evangelho. Daí sua expectativa de que a visita inspire a Igreja peruana a ser uma Igreja “em movimento”, próxima daqueles que vivem nas periferias.

Uma visita que deve provocar conversão

Os dois bispos concordam que a visita não deve se reduzir a grandes celebrações. Para dom Cadenas, a chegada do Papa deve levar os católicos peruanos a examinar como vivem sua fé e seu compromisso com os mais vulneráveis.

“Muita alegria para todo o Peru, mas não nos esqueçamos de que ele é o representante de Jesus que vem nos visitar e nos pede que mudemos radicalmente nosso estilo de vida para nos aproximarmos do Evangelho de Jesus”, exortou. Essa conversão, ressaltou ele, deve também ter consequências sociais e políticas, especialmente na defesa daqueles que vivem na pobreza e na vulnerabilidade.

Para dom Martínez de Aguirre, a preparação para a visita pode ser também uma oportunidade para revitalizar paróquias, dioceses, congregações e grupos apostólicos. “Vamos todos à luta”, incentivou, convidando a todos a dinamizar a vida da Igreja.

Um novo ponto de partida para a Amazônia

A chegada de Leão XIV a Pucallpa se apresenta, portanto, como muito mais do que uma escala em uma jornada apostólica. Para os bispos da Amazônia, é uma oportunidade para a Igreja universal voltar a olhar para uma região de enorme riqueza cultural e espiritual, mas também marcada por profundas feridas sociais e ambientais.

De Puerto Maldonado a Pucallpa, o caminho iniciado por Francisco e agora retomado por Leão XIV continua: escutar a Amazônia, reconhecer suas feridas, defender a dignidade de seus povos e fazer de seus desafios uma preocupação de toda a Igreja.

O verdadeiro desafio, concluem os bispos, não será apenas escutar o que o Papa dirá, mas o que a Igreja peruana fará depois de ouvi-lo: se a visita for bem-sucedida em fortalecer a defesa dos povos indígenas, o cuidado com a criação, a missão e a justiça social, Pucallpa poderá se tornar um novo ponto de partida para toda a Amazônia.

 

 

 

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