O cisma de Lefebvre se repete após 38 anos
É uma história conturbada, marcada por tentativas generosas, portas mantidas abertas e oportunidades oferecidas. É uma história dolorosa, assinalada por duas graves rupturas que levaram a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre, a separar-se do Papa e da comunhão com a Igreja de Roma, consagrando bispos sem mandato pontifício. A ruptura consumada em 1º de julho passado tem consequências graves não apenas para os bispos e sacerdotes lefebvrianos, mas para todos os fiéis, uma vez que — como se lê na Nota Explicativa do Dicastério para a Doutrina da Fé — os sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal “administram ilicitamente os sacramentos e que o sacramento da penitência por eles administrado e o matrimônio por eles assistido são inválidos”.
As decisões de Lefebvre
Durante o Concílio Vaticano II, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, embora pertencesse à minoria contrária a algumas reformas, assinou tanto a Constituição sobre a Liturgia quanto a Declaração sobre a Liberdade Religiosa.
Depois de fundar, em 1970, a Fraternidade São Pio X em Écône, Lefebvre recusou-se a celebrar segundo o novo Missal e, em 1974, definiu as reformas conciliares como “novidades destruidoras da Igreja”, declarando por escrito sua rejeição à Roma “neo-modernista”. A diocese retirou o reconhecimento da Fraternidade, mas Paulo VI buscou o diálogo, solicitando o fechamento do seminário. Diante das repetidas recusas, Lefebvre foi suspenso a divinis, mas continuou a celebrar publicamente. Em 1976, recebido em Castel Gandolfo, o encontro com o Papa não produziu resultados. Paulo VI confiou ao filósofo Jean Guitton sua dor diante daquilo que definiu como “a primeira verdadeira cruz” de seu pontificado, sem, contudo, querer transformar a falta de comunhão em uma excomunhão formal.
O acordo doutrinal assinado por Lefebvre
Com a eleição de João Paulo II, Lefebvre demonstrou maior abertura, declarando, em 1980, não ter dúvidas sobre a legitimidade do novo Papa. Em abril de 1988, o cardeal Joseph Ratzinger conduziu uma negociação de três dias com o arcebispo, chegando a um protocolo doutrinal comum, assinado em 5 de maio: a Fraternidade São Pio X prometia fidelidade à Igreja e ao Pontífice, aceitava o Magistério conciliar e reconhecia a validade da Missa celebrada segundo os ritos de Paulo VI e João Paulo II. Estava prevista também a consagração de um bispo da Fraternidade Sacerdotal. Tudo parecia resolvido.
O primeiro ato cismático
Em 6 de maio de 1988, Lefebvre voltou atrás no acordo, anunciando a intenção de consagrar novos bispos sem mandato pontifício, temendo que Roma não escolhesse candidatos provenientes da própria Fraternidade Sacerdotal. Apesar de um novo encontro e de um telegrama de Ratzinger pedindo, “por amor a Cristo e à sua Igreja”, que renunciasse às ordenações, em 30 de junho de 1988 Lefebvre, juntamente com o bispo brasileiro Antônio de Castro Mayer, consagrou quatro novos bispos: Fellay, de Galarreta, Williamson e Tissier de Mallerais. Em 1º de julho entrou em vigor a excomunhão latae sententiae por ato cismático. Nos anos seguintes, a Santa Sé mostrou-se disposta a conceder soluções canônicas, enquanto os lefebvrianos continuaram a invocar a falta de “clareza doutrinal”, exigindo, na prática, que a Igreja renunciasse a partes do Concílio.
A peregrinação de 2000 e as concessões de Bento XVI
Em agosto de 2000, os lefebvrianos realizaram uma peregrinação jubilar a Roma, e Dom Fellay foi recebido por João Paulo II. Os contatos se intensificaram com Bento XVI, que em 2007 liberalizou o uso do Missal pré-conciliar com o Motu Proprio Summorum Pontificum e, em 24 de janeiro de 2009, revogou a excomunhão dos quatro bispos consagrados por Lefebvre. A decisão, porém, foi ofuscada pela divulgação de uma entrevista na qual um dos bispos reabilitados, Richard Williamson, havia expressado posições negacionistas sobre o extermínio dos judeus, desencadeando duras críticas contra o Papa, que esperava dos lefebvrianos um compromisso em favor da plena comunhão com a Igreja.