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Turismo religioso reforça mecessidade de governança e qualificação no Brasil

O Salão do Turismo 2026 marcou um momento simbólico e estratégico para o Turismo Religioso no Brasil. Realizado entre os dias 7 e 9 de maio, em Fortaleza, o evento — considerado um dos principais do setor turístico nacional — aconteceu pela primeira vez na região Nordeste, evidenciando não apenas a capacidade estrutural da região, mas também o fortalecimento do turismo nordestino no cenário brasileiro.

Com o tema “Salão do Turismo ao lado do povo brasileiro”, o Salão do Turismo deste ano trouxe, pela primeira vez em sua programação técnica, duas palestras voltadas exclusivamente ao Turismo Religioso, segmento que há anos vem sendo acompanhado pelo Ministério do Turismo devido ao seu crescimento contínuo e impacto econômico em diferentes regiões do país.

Governança no Turismo Religioso entra no centro do debate

A primeira palestra, realizada no dia 8 de maio, abordou o tema “Governança no Turismo Religioso” e foi conduzida por Sidnésio Moura, bacharel em Turismo, especialista no segmento e considerado uma das principais referências do Turismo Religioso no Brasil.

Durante sua apresentação, Sidnésio Moura destacou a necessidade de aprofundamento dos dados oficiais relacionados ao segmento no país. Segundo ele, os números historicamente utilizados pelo Ministério do Turismo desde os levantamentos publicados em 2005 e retomados em 2015 já demonstravam inconsistências diante da dimensão real do setor.

O especialista apresentou dados de 2025 indicando que apenas quatro destinos religiosos brasileiros já somaram, sozinhos, cerca de 20,1 milhões de visitantes, números informados pelos próprios destinos e santuários.

Segundo Sidnésio Moura, esse quantitativo representa apenas parte da realidade nacional.

“Isso é apenas a ponta do iceberg, porque os dados refletem principalmente o Turismo Religioso ligado à Igreja Católica Apostólica Romana. Existe uma necessidade urgente de aprofundamento das pesquisas envolvendo outras religiões presentes no Brasil, como as de matriz africana, protestantes, espíritas e muçulmanas, que também possuem forte potencial de oferta e demanda dentro do Turismo Religioso”, destacou Sidnésio Moura.

O palestrante também chamou atenção para a ausência de governança estruturada no segmento em grande parte do país. Segundo ele, ainda são poucos os destinos que possuem grupos de trabalho efetivamente atuantes voltados ao Turismo Religioso.

Como referência positiva, citou o Estado do Paraná, apontado como o único estado brasileiro com um Grupo de Trabalho específico para Turismo Religioso em pleno funcionamento. Também mencionou o Rio Grande do Norte, que possui Grupo de Trabalho instituído por decreto e o maior número de leis relacionadas ao Turismo Religioso no país.

No entanto, reforçou que apenas legislar não é suficiente.

“Não adianta criar leis sem colocá-las em prática. O Turismo Religioso precisa sair do papel e entrar efetivamente na pauta da gestão pública e da governança turística”, pontuou.

Sidnésio Moura também defendeu a presença de lideranças religiosas nos Conselhos Municipais e Estaduais de Turismo, além da criação de uma cadeira específica para o Turismo Religioso no Conselho Nacional de Turismo.

Turismo Religioso como experiência de fé

Já no dia 9 de maio, a programação contou com a palestra do Daniel Aguirre, mestre em Turismo, doutorando e guia de turismo especializado em peregrinações e excursões religiosas.

A apresentação percorreu a origem histórica do Turismo Religioso, partindo das peregrinações bíblicas associadas a Abraão, passando pela atuação de Thomas Cook — considerado precursor das excursões organizadas — até referências contemporâneas ligadas à espiritualidade, como Carlo Acutis.

Durante sua explanação, Daniel Aguirre ressaltou os Marcos Conceituais do Ministério do Turismo, que orientam o entendimento técnico do segmento e reconhecem diferentes manifestações religiosas com potencial turístico.

O palestrante destacou ainda que Turismo Religioso não deve ser resumido à simples visita a espaços religiosos.

“Turismo Religioso é experiência de fé, espiritualidade, acolhimento e vivência. Não se trata apenas de entrar em uma igreja ou templo para tirar uma fotografia”, explicou Daniel Aguirre.

A palestra também abordou exemplos de êxito no desenvolvimento do segmento, especialmente iniciativas ligadas à Pastoral do Turismo, apontada como importante instrumento de acolhimento, evangelização e organização das experiências religiosas nos destinos.

Interesse crescente e necessidade de qualificação

As duas palestras registraram salas lotadas, reunindo gestores públicos, acadêmicos, lideranças religiosas, guias de turismo e representantes do trade turístico de diferentes regiões do Brasil.

A procura pelas atividades evidenciou o interesse crescente pelo segmento e, principalmente, a necessidade de qualificação técnica voltada ao Turismo Religioso.

O cenário reforça a importância de que o Ministério do Turismo mantenha o tema em pauta nas próximas edições do evento e amplie as ações voltadas à formação profissional no setor.

Entre as sugestões debatidas durante o encontro está a criação de um curso online em formato EAD, por meio do setor de qualificação do Ministério do Turismo, reunindo especialistas como Sidnésio Moura, Daniel Aguirre e outros nomes ligados ao segmento.

Um segmento que precisa entrar definitivamente na pauta nacional

O debate realizado no Salão do Turismo reforçou um entendimento cada vez mais evidente: o Turismo Religioso já ocupa uma dimensão significativa dentro do turismo brasileiro e precisa ser tratado de forma estratégica.

Em um momento em que o Ministério do Turismo prioriza temas como governança e regionalização, o Turismo Religioso surge como pauta diretamente conectada a essas diretrizes.

A avaliação apresentada durante as palestras aponta que o segmento necessita de planejamento, integração e acompanhamento técnico permanente, além da presença de profissionais específicos dentro das estruturas públicas de turismo, com olhar voltado exclusivamente para esse mercado.

Mais do que um segmento complementar, o Turismo Religioso demonstra capacidade de movimentar fluxos, fortalecer destinos e gerar desenvolvimento econômico e cultural em diferentes regiões do país.

E o que se viu em Fortaleza foi justamente isso: um setor que deixa de ocupar espaços secundários e passa a entrar, definitivamente, no centro das discussões do turismo nacional.

 

 

 

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