O pórtico da Paixão: devoções para o início da Semana Santa
Com o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, inicia-se a Semana Maior. Nela, somos convidados a adentrar profundamente no mistério da Redenção, assim como Jesus entrou em Jerusalém. É fundamental recordar que a Quaresma ainda não se findou; por isso, o espírito de penitência permanece presente, manifestado liturgicamente pela cor roxa e pelo silêncio meditativo.
Os três dias que antecedem o Tríduo Pascal não constituem um mero intervalo, mas um período de ascese e preparação. Historicamente, esses eram os momentos finais de purificação dos catecúmenos que seriam batizados na Vigília Pascal. Ao rememorarmos essa tradição, somos impelidos a buscar práticas que nos tornem mais puros, preparando nosso “traje de festa”, a veste batismal da alma, para a grande Solenidade das solenidades.
Em muitas comunidades, o povo fiel cultiva devoções que enriquecem a compreensão dos mistérios da salvação. Destaco aqui algumas das mais significativas.
O Terço ou Coroa das sete dores de Nossa Senhora
Esta prática conduz-nos à meditação desde a profecia de Simeão até o sepultamento de Cristo que muito fez doer o coração de Nossa Senhora. A Virgem Maria esteve presente de modo único junto à Cruz. Por isso, unir-se às suas dores é o caminho mais curto para consolar o coração de Cristo.
A procissão do encontro
Uma das expressões mais belas da religiosidade popular luso-brasileira. Geralmente, a imagem do Senhor dos Passos (Jesus carregando a cruz) e a de Nossa Senhora das Dores partem de lugares distintos para se encontrarem em um ponto central. Tradicionalmente, os homens acompanham o Senhor dos Passos e as mulheres seguem a Virgem. Esse rito rememora o doloroso encontro entre Mãe e Filho na Via dDolorosa, movendo os fiéis à contrição.
Sermão das Sete Palavras
Trata-se de uma profunda meditação sobre a agonia de Cristo através das sete últimas expressões ditas por Ele na Cruz. É uma síntese harmônica dos quatro Evangelhos que revela o testamento de amor e misericórdia do Redentor.
O Ofício das Trevas (Tenebrae)
Uma das cerimônias mais impressionantes e psicologicamente densas da tradição cristã. Durante o canto dos salmos, as velas do candelabro são apagadas uma a uma, simbolizando o abandono sofrido por Jesus. O uso das matracas ao final, o chamado Strepitus, evoca o terremoto e a desolação da natureza diante da morte do seu redentor. A última vela, que permanece acesa, mas é momentaneamente escondida, representa a divindade de Cristo que, embora oculta na morte, jamais se apaga.
Outras práticas
Além dessas práticas, o fiel dispõe da Via Sacra, do rosário, das meditações espirituais dos santos, das orações e de tantas outras. O essencial é não perder de vista o sentido destes dias: cada exercício espiritual deve ser um tijolo no edifício espiritual que estamos construindo, permitindo-nos participar do mistério pascal com renovado fervor. Procedendo assim, seremos capazes de tocar a totalidade deste mistério que nos salva.